Crédito a grande empresa cresce 12% — Foto: valor

A crise do coronavírus provocou um desvio de rota no mercado de crédito, levando as grandes empresas à maior participação em quase dois anos na carteira dos maiores bancos do país.

No fim de março, o topo da clientela do atacado - o chamado “large corporate” - somava R$ 748,824 bilhões em empréstimos e financiamentos. O volume equivale a 28,7% do estoque de crédito combinado de Itaú Unibanco, Bradesco, Santander e Banco do Brasil (BB), e representa o patamar mais elevado desde junho de 2018 (29,2%).

O saldo da carteira de grandes empresas cresceu 12,2% em relação ao fim do ano passado. Enquanto isso, o volume total de crédito dos maiores bancos avançou 6,9%, para R$ 2,613 trilhões.

Esse é o reflexo de um movimento brusco que se deu na segunda quinzena de março, quando as grandes empresas saíram em busca de liquidez para atravessar a tempestade que então se formava. “Foi a mesma coisa que as pessoas no supermercado querendo comprar 100 litros de álcool em gel sem precisar de tudo isso”, afirmou o presidente do Bradesco, Octavio de Lazari Jr.

De acordo com o executivo, a demanda já voltou ao normal, mas no início o banco chegou a receber pedidos de até R$ 20 bilhões por dia - dez vezes acima da média.

O fenômeno chama a atenção porque, até ali, o ambiente econômico estável e de taxas de juros baixas vinha levando as empresas de grande porte a se financiar preferencialmente no mercado de capitais. Isso se dava não apenas porque as condições estavam mais atraentes, mas também por orientação dos próprios bancos, que reduziram a exposição aos pesos-pesados da economia depois da Lava-Jato e da recessão de 2016.

Agora, o ambiente adverso para emissões de dívida e de ações levou as companhias de volta aos bancos. Embora esse movimento seja natural em momentos de crise, foi mais brusco desta vez porque o cenário inusitado trazido pela pandemia de covid-19 fez valer como nunca a máxima de que “caixa é rei”. As taxas de juros de novas operações, como consequência, também subiram, despertando reclamações em setores como o automotivo e o de varejo.

Embora a busca desenfreada por recursos já tenha arrefecido, as grandes empresas provavelmente continuarão a ter maior participação no crédito nos próximos meses. “Os principais fatores que influenciarão o comportamento da carteira de crédito no curto e no médio prazo serão a maior participação do segmento de grandes empresas, uma menor demanda de pessoas físicas e um volume relativamente alto de renegociações”, disse a jornalistas Milton Maluhy Filho, vice-presidente executivo de finanças do Itaú.

Nos últimos anos, os bancos vinham apostando suas fichas nas carteiras de pessoas físicas e de micro, pequenas e médias empresas - segmentos em que os spreads são mais atrativos para eles. Agora, são justamente as companhias de menor porte as mais vulneráveis à crise. Muitas, inclusive, preferem não se endividar, como sugere a baixa demanda pela linha de crédito à folha de pagamento. Os indivíduos, por sua vez, estão expostos ao risco de desemprego.

Não por acaso, o copresidente do conselho de administração do Itaú Unibanco Roberto Setubal defendeu ontem, em transmissão ao vivo promovida pelo banco, que o governo apoie principalmente as pequenas empresas, que são pouco capitalizadas e têm menos acesso a recursos. Segundo ele, as linhas devem ter carência e prazo longo.

Para Walter Malieni, vice-presidente de negócios de atacado do BB, a demanda mais forte das grandes empresas é natural neste momento, pois elas costumam ter um planejamento financeiro mais organizado. Ao mesmo tempo, pode ter um efeito positivo. “É uma forma de proteger as cadeias produtivas como um todo, e consequentemente a atividade econômica.”

Diante da pouca clareza que há sobre o cenário, todos os bancos retiraram suas projeções para 2020, que indicavam crescimentos de até 13% no volume de crédito. Muito vai depender do tempo que será necessário para o isolamento social e do impacto que ele terá sobre a atividade das empresas, o emprego e o comportamento dos consumidores no pós-crise. Uma recuperação plena da economia poderá levar até dois anos, na avaliação de Setubal.

Antevendo essa onda, as maiores instituições financeiras do país reforçaram as provisões diante de uma provável escalada da inadimplência, que poderá levar o setor a superar o pico visto em 2017, segundo os próprios banqueiros. As despesas com provisões para devedores duvidosos dos quatro grandes saltaram 88,4% em um ano, para R$ 25,758 bilhões, no primeiro trimestre - maior patamar desde o quarto trimestre de 2016.

A alta reflete a decisão de Itaú, Bradesco e BB de elevar suas reservas complementares, aquelas que são feitas como proteção contra cenários adversos. O Santander, que já havia começado a aumentar as provisões no ano passado, preferiu agora esperar para ver os desdobramentos da crise antes de dar um novo passo de forma mais contundente. O presidente do banco, Sérgio Rial, disse que haverá mais clareza sobre a evolução da inadimplência no terceiro trimestre.

Com as novas provisões, os quatro grandes bancos de capital aberto contabilizaram juntos lucro líquido recorrente de R$ 14,913 bilhões no primeiro trimestre, um recuo de 28,5% em relação ao mesmo período do ano passado. O coronavírus interrompeu uma sequência de resultados crescentes e impôs às instituições financeiras a primeira queda desde o quarto trimestre de 2016, ano marcado pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff e pela recessão.

A pandemia também pegou os bancos num momento em que as receitas já estavam pressionadas pelo teto da taxa de juros do cheque especial e pelo aumento da competição de fintechs. A margem financeira combinada dos quatro bancos somou R$ 58,964 bilhões no primeiro trimestre, uma alta de 5,7% ante o mesmo período do ano passado.


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Talita Moreira e Flávia Furlan -São Paulo, 08/05/2020