A nova metodologia para cálculo dos itens "empregado doméstico" e "mão de obra para reparos domésticos" no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) começou a valer no início do mês. Com a mudança, os itens deixam de ser indexados ao reajuste anual do salário mínimo e passam a responder à variação mensal dos rendimentos segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE.

O impacto estimado pelos economistas com a novidade é relativamente pequeno, de cerca de 0,1 ponto percentual sobre a inflação estimada para 2018, e não chega a preocupar em tempos de surpresas inflacionárias positivas e núcleos da inflação bem comportados. Especialistas elogiam a mudança, que tende a aumentar a sensibilidade do IPCA com relação ao nível de atividade, mas cobram do IBGE acesso aos dados da Pnad que serão usados no cálculo.

"A mudança melhora a acurácia do indicador e é bem-vinda, mas em termos de mudar a inflação deste ano é muito pouco, porque a atividade econômica está em modesta recuperação", afirma Fábio Romão, economista da LCA Consultores. Além do IPCA, a nova metodologia também será aplicada ao IPCA-15 e ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC).

Até abril de 2016, o IBGE utilizava dados de rendimentos da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) para acompanhar os reajustes de empregados domésticos e mão de obra para reparos. Com a extinção da pesquisa, em fevereiro daquele ano, o órgão oficial de pesquisa passou a adotar o reajuste anual do
salário mínimo como referência para a variação dos dois itens no IPCA.

Em 2016, a variação ficou em 0,87% ao mês de maio a dezembro, considerando uma composição entre o reajuste do salário básico nacional e os mínimos regionais. Em 2017, a variação mensal ficou em 0,52% o ano todo, considerando apenas o reajuste anual de 6,4% do mínimo nacional, pois os salários de referência regionais costumam ser definidos já com o ano iniciado.

Em 2018, com o reajuste anual do salário mínimo nacional em apenas 1,81%, a variação mensal será de 0,15% até abril. Mas, a partir de maio, os itens devem voltar a variar mês a mês, tendo como referência o comportamento dos rendimentos dos trabalhadores domésticos segundo a Pnad.

Com a mudança, a LCA estima que o item empregado doméstico deverá ter variação de 3,6% em 2018 e a mão de obra, 3,2%. O impacto sobre o IPCA em 2018 é estimado em 0,09 ponto, considerando o peso de 5,8% dos dois itens no indicador. "Nosso IPCA de 3,5%, projetado para 2018, seria de 3,4%, não fosse por essa mudança metodológica", afirma Romão.

Para Vagner Alves, economista da Mogno Capital, a alteração é positiva por refletir melhor o movimento dos salários da categoria, em resposta ao desempenho da atividade. "Um segundo ponto é que isso gera menor indexação dentro do índice de preços", avalia. O reajuste anual do mínimo considera a variação do PIB de dois anos antes e a variação do INPC do ano anterior. Ao usar o salário básico como referência, portanto, o IPCA acabava "carregando" nos dois itens a inflação passada, ao invés de refletir o momento presente.

Alves também estima em 0,1 ponto percentual o impacto da mudança no IPCA de 2018 - sua projeção atual está em 3,4%. "Isso não muda a tendência geral da inflação para o ano, porque os núcleos estão todos muito bem comportados", diz. Medidas que retiram itens mais voláteis para melhor retratar a tendência da inflação, os núcleos estão estáveis pouco acima dos 3% (taxa em 12 meses), enquanto o IPCA segue abaixo do piso da meta há nove meses.

Mesmo a recente alta do dólar e de commodities como petróleo, soja e milho não tira o sono dos especialistas, pois a elevada ociosidade da economia e demanda ainda fraca servem de contrapeso para manter a inflação comportada.

"O que está acontecendo com câmbio e commodities mais serve para segurar as projeções do mercado [para o IPCA em 2018] em torno do 3,5%, do que para rever a inflação para cima", diz Romão, da LCA. No boletim Focus desta semana, as estimativas para o IPCA em 2018 ficaram estáveis em 3,49%, após semanas seguidas de quedas.

Apesar dos elogios à nova metodologia, economistas ouvidos pelo Valor criticaram o fato de o IBGE ainda não ter divulgado os dados mensais da Pnad Contínua que servirão de base para o cálculo dos itens no IPCA.

Gustavo Vitti Leite, coordenador de índices de preços no instituto, informou que os microdados serão divulgados junto ao IPCA-15 de maio, primeira publicação sob a nova metodologia, prevista para o dia 23 deste mês.

Também em maio passa a vigorar a nova cobertura geográfica do IPCA, com a entrada das capitais Rio Branco, São Luiz e Aracaju na amostra, além das 13 áreas atuais. A mudança, no entanto, não deve provocar alteração relevante no indicador.

Fonte: Valor - Macroeconomia, por Thais Carrança, 04/05/2018