Quando o ministro da Fazenda do eventual governo Michel Temer tomar posse encontrará, em sua mesa de trabalho, uma proposta completa de reforma do sistema tributário brasileiro, que o governo Dilma Rousseff elaborou, ao longo dos últimos anos, mas que não teve força política suficiente para aprová la no Congresso Nacional, nem recursos da União para compensar as perdas de receita que alguns Estados terão com as alterações.
A mudança das complexas legislações do PIS/Pasep e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e a unificação das alíquotas interestaduais do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) foram as propostas que tecnicamente mais avançaram. Na agenda que será deixada pelo ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, há também um projeto sobre o Supersimples, diferente daquele que tramita no Congresso, sugestões para aumentar a tributação sobre heranças e doações e um projeto com alterações significativas na legislação do Imposto de Renda (IR), com o objetivo anunciado de tornálo mais progressivo, criando inclusive a alíquota de 35%.
O governo Dilma Rousseff encaminhou ainda ao Congresso a medida provisória 694, que elevava o IR incidente no mecanismo de juros sobre capital próprio. A MP fazia parte do ajuste fiscal apresentado pelo exministro da Fazenda Joaquim Levy e o governo previa arrecadar cerca de R$ 9,9 bilhões com a MP em 2016. A MP perdeu validade, ao não ser votada pelo Senado, mas a ideia da equipe
econômica de Dilma era retomar a proposta assim que possível. Outra proposta que vem sendo apresentada pela Receita Federal desde a época do exministro da Fazenda Antonio Palocci é a mudança na tributação das pessoas jurídicas que declaram o IR com base no lucro presumido. O governo avalia que muitas pessoas físicas abrem empresas jurídicas apenas para pagar menos Imposto de Renda e quer corrigir o que consideram uma distorção.
O futuro ministro da Fazenda do eventual governo Temer saberá que a proposta de mudança do PIS/Pasep e da Cofins resultou de um longo trabalho de análise realizado pela Receita Federal e iniciado ainda no fim do governo do expresidente Luiz Inácio Lula da Silva. O principal objetivo da reforma é simplificar a cobrança dos dois tributos, dar segurança jurídica às empresas e tornar a apuração mais transparente. A área técnica da Receita admite que a atual legislação do PIS/Pasep e da Cofins é excessivamente complexa, marcada por uma enorme quantidade de regimes especiais, limita excessivamente o direito de apuração de crédito, permite uma assimetria concorrencial, coexiste com a incidência cumulativa e foi objeto de grandes desonerações. Por causa disso, há um grande contencioso relacionado com esses tributos nos tribunais, que afeta a receita da União e cria insegurança aos contribuintes.
A proposta que estará na mesa do futuro ministro da Fazenda prevê primeiro a mudança do PIS/Pasep, que será utilizado como uma espécie de "projeto piloto". A ideia da Receita Federal é avaliar os efeitos das novas regras, inclusive com relação às alíquotas a serem adotadas. A estratégia prevê que, após essa avaliação dos efeitos das mudanças do PIS/Pasep, a atual Cofins será incorporada à nova contribuição, sendo definidas as alíquotas finais e o nome do novo tributo. A maior mudança nas regras do PIS/Pasep, de acordo com o projeto de lei elaborado pela atual equipe econômica, é a adoção do crédito ampliado. Com a nova sistemática, praticamente todas as aquisições da empresa gerarão crédito, que poderá ser abatido do tributo a ser pago. Para aumentar a simplificação e a transparência do tributo, todos os créditos que podem ser deduzidos do valor a pagar serão aparecerão na nota fiscal eletrônica.
No caso do ICMS, a reforma está parada no Senado por falta de recursos da União para criar um fundo de compensação das perdas dos Estados que perderão receita com as mudanças e para criar um fundo de desenvolvimento regional. Uma solução encontrada foi reservar uma parte da receita que será obtida com a regularização de ativos de brasileiros enviados ao exterior e não declarados à Receita ou declarados incorretamente, definida pela Lei 13.254, para criar os dois fundos. O problema é que, ao votar a lei, o Congresso estabeleceu que a multa que será cobrada das pessoas que regularizarem os seus ativos terá a mesma repartição dos Fundos de Participação dos Estados e dos municípios. Por esse dispositivo, os recursos não seriam destinados aos dois novos fundos
que viabilizariam a reforma do ICMS. A presidente Dilma Rousseff vetou este artigo da lei.
Como não consegue os recursos para garantir a reforma do ICMS, que prevê a convergência das alíquotas interestaduais do tributo para 4%, a atual equipe econômica definiu uma estratégia que prevê, em primeiro lugar, a convalidação dos benefícios tributários já concedidos pelos Estados. A ideia é regularizar o que já foi feito e proibir concessões futuras. O problema é que, atualmente, para fazer essa convalidação dos incentivos é necessário unanimidade no Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz). O Estado de São Paulo, no entanto, só aceita a convalidação se ela for feita junto com a redução das alíquotas interestaduais. Para contornar essa dificuldade, o governo propõe a aprovação de um projeto de lei complementar pelo Congresso que reduza o quórum das votações no Confaz.
Outro projeto que será deixado pelo ministro Nelson Barbosa é de mudança do Supersimples. A ideia do ministro é aumentar o limite para enquadramento das empresas, mas também definir regras de saída do sistema. Barbosa considera que o projeto que está no Congresso para ser votado não é neutro, pois a União terá perda de receita com ele. Por esse projeto, o limite para o enquadramento no Supersimples subiria dos atuais R$ 3,6 milhões de faturamento anual para R$ 7,2 milhões em 2017 e para R$ 14,4 milhões em 2018. A Receita estima que essa elevação produziria uma perda de arrecadação de R$ 13 bilhões no próximo ano e de R$ 16,1 bilhões no ano seguinte.
As dificuldades atuais da União em reequilibrar as suas contas e produzir um resultado primário positivo, necessário para colocar a dívida pública em uma trajetória sustentável, levaram o governo a estudar uma série de mudanças tributárias que aumentem a arrecadação. Entre elas, uma maior tributação sobre heranças e doações e mudanças. O governo federal também quer participar dessa receita, que cabe apenas aos Estados.
Fonte: APeMEC, 02/05/2016

