Pela primeira vez no ano, os cerca de cem analistas e departamentos econômicos consultados pelo Banco Central para o boletim Focus passaram a estimar que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) vai superar o teto da meta perseguida pela autoridade monetária, de 6,5%. De acordo com o relatório divulgado ontem, a mediana das projeções para o índice oficial de inflação subiu pela sétima semana consecutiva, ao passar de 6,47% para 6,51%.
Apesar da deterioração recente das expectativas, levantamento realizado pelo Valor mostra que o índice de acerto é baixo quando são levadas em consideração as estimativas feitas em abril (ver tabela). Em igual período do ano passado, por exemplo, o mercado projetava alta de 5,69% do IPCA no ano, mas o índice oficial de inflação encerrou 2013 com avanço de 5,91%. Em 2012, o desvio foi ainda maior. Em abril, os analistas estimavam, em média, alta de 5,07% do IPCA, mas o indicador encerrou o ano com avanço de 5,84%.
Para os economistas ouvidos pelo Valor, há uma série de itens que podem pressionar ainda mais os preços ao longo deste ano. Após a forte alta dos alimentos em março, os reajustes das tarifas de energia elétrica autorizados nas últimas semanas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), da ordem de 15% em algumas cidades, surpreenderam analistas e as projeções para abril, ainda segundo o Focus, passaram de 0,72% para 0,80%. Para maio, as estimativas passaram de 0,47% para 0,48%.
Por causa dessa trajetória, Leonardo Costa França, economista da Rosenberg & Associados, avalia que há 100% de chance do IPCA estourar o teto da meta, no acumulado em 12 meses, em maio ou junho deste ano. O índice só deve voltar para o intervalo permitido pelo regime de bandas em dezembro, quando a inflação vai ceder para 6,3%, calcula o economista. A consultoria passou a estimar IPCA mais alto neste ano por causa do choque de alimentos e pela pressão vinda das contas de luz. Com os reajustes já autorizado pela Aneel, a estimativa para o item energia elétrica residencial, que era de 5%, passou para 9,5%, mesma projeção do BC.
França não descarta a possibilidade de o índice encerrar o ano acima de 6,5%, mas por enquanto não considera esse cenário o mais provável. "A valorização do real em relação ao dólar no período recente deve dar algum alívio para a inflação no segundo semestre", afirma As projeções para a taxa de câmbio média no período passaram de R$ 2,38 para R$ 2,36 no Focus. França também espera que os preços dos alimentos devolvam parte das altas já observadas, com a normalização das condições climáticas.
Para Newton Rosa, economista-chefe da Sul América Investimentos, os preços dos alimentos in natura devem ceder, mas a seca afetou também a oferta de carnes e leite, por exemplo, o que pode fazer com que as altas observadas nos últimos dois meses sejam mais persistentes. O economista estima avanço de 0,72% para o IPCA de abril, mas avalia que essa projeção pode estar subestimada. Por isso, Rosa considera que o maior risco para o seu cenário, que já contempla IPCA em 6,56% ao fim do ano, ainda é para cima.
"A inflação mudou de patamar e, como há pouca margem de manobra, qualquer choque de oferta joga os preços para cima", afirma Rosa. O economista avalia que a inflação deve começar a ceder, na comparação mensal, a partir de maio, mas a sazonalidade será menos positiva do que no ano passado. "Temos serviços ainda bastante pressionados, algumas tarifas de transporte urbano subiram, como no Rio, e ainda há os reajustes previstos de energia elétrica", diz.
Rosa avalia que ainda pode haver deterioração adicional das expectativas, diante da sinalização de que a autoridade monetária vai interromper o ciclo de alta de juros mesmo com a recente piora da dinâmica inflacionária. O economista estima mais uma alta de 0,25 ponto percentual da Selic neste ano, mesmo cenário esperado pelos analistas consultados pelo Focus. "Nos discursos, os dirigentes do Banco Central têm enfatizado os efeitos cumulativos e defasados da política monetária, um sinal claro de que estão satisfeitos com a alta de juros recente, mas as expectativas estão longe de estar ancoradas", afirma.
O consenso de mercado é de inflação de 6% em 2015. Já Rosa projeta alta de 6,3% do IPCA, com recomposição parcial dos preços administrados, que subiriam 7% nesse cenário. O economista espera que o BC retome o ciclo de alta da Selic no ano que vem e leve a taxa básica de juros para 13% ao ano ao fim de 2015, enquanto o consenso de mercado espera um ajuste menor, com elevação da Selic para 12% ao ano.
Também fora do consenso, o BNP Paribas estima taxa de juros de 13% ao fim do ano. O banco francês é ainda mais pessimista em relação à inflação. Em relatório, o BNP afirma que elevou sua estimativa para o IPCA no próximo ano de 6,2% para 7%, em função da crescente necessidade de ajustar os preços monitorados, atualmente represados.
Fonte: Valor, por Tainara Machado |, 23/04/2014

