Decano da produção de vacinas no Brasil, o assessor científico sênior da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Akira Homma é simpático à possibilidade de aplicar duas doses de vacinas diferentes contra a covid-19. Ele enfatiza a necessidade da conclusão de testes clínicos e do aval regulatório, mas diz que a estratégia é promissora e até provável mais à frente.
Ao Valor Homma defendeu que, após a vacinação de grupos prioritários, a distribuição de doses pelo governo federal passe a privilegiar regiões com maior incidência do vírus em vez de respeitar cegamente a proporção populacional dos Estados. “Tão logo haja maior disponibilidade de vacina, sou a favor de vacinar locais com alto número de casos. Mas isso deve ter critérios pré-estabelecidos e aprovação da sociedade [Congresso Nacional]. Sair do plano já aprovado pode causar mais tumulto do que solução”, pondera.
As opiniões do médico veterinário de 82 anos, 53 deles passados na Fiocruz, têm peso entre os pares. Homma foi decisivo para a autossuficiência do Brasil na produção de vacinas contra sarampo e poliomielite, fruto de acordo de cooperação técnica por ele mediado com o Japão. Depois, coordenou o aperfeiçoamento da tecnologia para a vacina da febre amarela, tornando o Brasil seu maior produtor mundial. O currículo explica a eleição entre as 20 maiores autoridades em vacina no mundo. Agora, o conselheiro de Bio-Manguinhos é observador privilegiado do combate à pandemia e divide as atenções dublando a si mesmo em animações da fundação.
Para Homma, além de acelerar campanhas travadas pela reserva da segunda dose, como acontece no Brasil, a vacinação cruzada pode diversificar os mecanismos de proteção em um mesmo indivíduo, algo especialmente útil em um cenário de potencial variantes. Uma terceira vantagem, diz o especialista, é a diminuição da incidência das chamadas reações adversas raras, como os casos de trombose, na Europa associados à utilização da vacina de Oxford/ AstraZeneca.
Ele diz que é cedo para cravar relação de causa e efeito entre esses incidentes com a vacina envasada pela Fiocruz no Brasil, mas vê como acertada a decisão de Alemanha e França de mudar o imunizante da segunda dose para menores de 60 anos. “As reações adversas também têm a ver com o volume de antígeno que se recebe. Quando muda esse antígeno, esses casos se diluem.”
A desvantagem mais imediata do intercâmbio de vacinas, segundo ele, é a possível queda do número de anticorpos criados a partir da primeira dose a ponto de comprometer a proteção. Nesses casos, poderia se pensar em uma terceira aplicação, um “booster” distante do contexto brasileiro, mas cogitado nos Estados Unidos e em países de vacinação mais avançada.
A mistura é vista com ceticismo por parte da comunidade científica brasileira, devido à natureza distinta dos produtos em uso: proteína recombinante (Oxford/AstraZeneca) e vírus inativado (Coronavac). Pesa, também, o fato de a vacina de origem chinesa só conceder imunidade significativa na segunda dose, enquanto a da AstraZeneca garante eficácia acima de 70% após a primeira injeção.
Ainda não há estudos sobre a sua combinação. A Universidade de Oxford anunciou testes de combinação de seu fármaco com os produtos dos laboratórios Novavax e Moderna e desenvolve outros que envolvem a vacina da Pfizer e a russa Sputnik. As três últimas têm tratativas para chegar ao Brasil. O uso associado, portanto, poderia acontecer em meados do segundo semestre, em convergência com resultados de testes clínicos.
Homma diz que, em meio à vacinação lenta, as lideranças brasileiras deveriam ser “mais humildes” e seguir, ainda que tardiamente, o exemplo de países como Vietnã e Tailândia, que domaram a pandemia em cenário pré-vacina por meio de distanciamento rigoroso, obrigatoriedade de máscara e, principalmente, testagem e rastreamento de infectados e contatos - estratégia abandonada no Brasil.
Em paralelo, ele recomenda investir nas vacinas integralmente desenvolvidas no país, como as três opções mais avançadas, de pesquisadores da USP e da UFMG, mas também a ButanVac, do Instituto Butantan, e opções da própria Fiocruz. O leque, diz, é importante para fazer frente à imprevisibilidade das mutações, que podem exigir adaptações mais factíveis para quem domina todas as etapas de desenvolvimento. A dependência da tecnologia em si, afirma, estará resolvida mediante os contratos de transferência que garantem a importação de células mestre (banco capaz de ser replicado industrialmente) suficientes para 50 anos ou mais de produção.
Mas Homma diz que o saber produtivo não altera a dependência de insumos e maquinário importados. “Não fabricamos nem mais frascos de vidro, que exigem material especial.” Quase 50% dos insumos da produção de vacinas, biofármacos e kits de diagnóstico da Fiocruz vêm de fora, afirma.
Ante o grau de globalização do setor, ele diz que o Brasil terá de lidar com a fragilidade, mas pode recuperar parte da soberania ao incrementar a demanda, por exemplo, com o novo complexo industrial da Fiocruz, programado para operar ainda nesta década, visando até mesmo exportar vacinas. “Havendo demanda e escala, a indústria se interessa e passa a produzir insumos aqui. Só se consegue cadeia de fornecedores consistente com produção contínua.”
Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Gabriel Vasconcelos — Do Rio, 22/04/2021

