Os economistas já estão calculando os riscos de o Brasil ser atingido por uma eventual terceira onda da pandemia. O JPMorgan desenvolveu um modelo matemático e estatístico que projeta, no seu cenário central, um novo recrudescimento dos casos da covid-19 a partir de agosto, se as medidas de distanciamento social forem relaxadas nos próximos três meses.
Essa terceira onda não chega a ser, exatamente, uma previsão firme, dado o grande número de fatores que podem influenciar a dinâmica da pandemia. Dependerá de fatores como o andamento da vacinação, a eficácia das vacinas administradas, o índice de mobilidade da população e o grau de contágio do vírus, que pode mudar com o surgimento de novas cepas.
Ainda assim, o modelo desenvolvido pelo economista do JPMorgan Vinícius Moreira e pela economista-chefe para o brasil da instituição, Cassiana Fernandez, é uma ferramenta que permite pensar de uma maneira mais formal e objetiva como a pandemia poderá evoluir em diferentes cenários.
Também ajuda a explorar como as decisões dos governos, não apenas em relação à vacina, mas sobre medidas de distanciamento social e incentivo ao uso de máscaras, podem estimular ou conter a difusão do vírus e suas repercussões sobre a economia brasileira.
No cenário-base do JPMorgan, a mobilidade volta dentro de três meses aos níveis observados em janeiro, a vacinação ocorre com 40 dias de atraso em relação ao cronograma divulgado pelo governo e a eficácia da vacina chega a 62%.
Nessas condições, a média de sete dias do número de casos, que chegou a 72 mil na semana passada, vai caindo continuamente até um mínimo de 24 mil casos em meados de julho - patamar que não é visto no país desde novembro do ano passado. A partir daí, volta a subir, até chegar a um pico de 35 mil casos em fins de agosto, numa terceira onda mais moderada do que a segunda.
Um segundo exercício feito pelo JPMorgan leva em conta as mesmas hipóteses do cenário básico, mas assume a hipótese do surgimento de uma cepa que aumente em 3,5% a chance de contágio quando uma pessoa infectada tem contato com uma pessoa não infectada.
Com essas premissas, o número de casos diários cairia para um mínimo de 40 mil em fins de julho, depois começaria a subir, atingindo um pico novamente de 72 mil casos em setembro. Depois, voltaria a cair.
Uma terceira simulação pressupõe que cada pessoa seja vacinada 30 dias antes do previsto no calendário de vacinação do governo, além das demais premissas do cenário básico. Nessas condições, o número de casos cai a 17 mil em fins de julho e segue em queda, sem uma terceira onda, chegando a 10 mil em fins de agosto - o que não acontece desde maio de 2020.
Uma eventual terceira onda, explica a economista-chefe do JPMorgan, tenderia a não ter maiores impactos na economia porque o pressuposto é que a população com maior idade e de maior risco seja vacinada. “Se vacinar os grupo de riscos, no mínimo você pode esperar que a terceira onda, se acontecer, vai ter um grau menor de hospitalização”, afirma Cassiana Fernandez.
A aposta de que a vacinação dos mais idosos vai desafogar os hospitais é que está por trás do diagnóstico do Banco Central de que a economia nacional poderá reagir com mais força no segundo semestre.
O diretor de política monetária do Banco Central, Bruno Serra Fernandes, apresentou recentemente dados que mostram que a população com mais de 60 anos respondia no mês passado por 52% das internações e por 72% das mortes.
Embora achem plausível que a vacinação dos idosos ajude a reduzir a lotação das UTIs dos hospitais, porém, os economistas ainda têm algumas dúvidas sobre o que pode acontecer se houver uma forte alta nos casos entre os mais jovens. Os mais jovens costumam passar mais tempo nas UTIs do que os mais idosos, por isso não é possível descartar ainda o risco de uma superlotação.
Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Alex Ribeiro — De São Paulo, 22/04/2021

