No momento em que o Banco Central segue atento ao comportamento da inflação para calibrar a trajetória da taxa básica de juros no Brasil, as expectativas de inflação de 2022 começam a gerar preocupações adicionais para a autoridade monetária. Como mostrado no Boletim Focus divulgado ontem, a mediana das expectativas dos economistas de mercado para o IPCA em 2022 subiu de 3,53% para 3,60%. A alta acende o sinal amarelo no BC em relação ao comportamento da inflação e, para analistas ouvidos pelo Valor, é possível que o movimento force mudanças na comunicação da autoridade monetária em relação à trajetória esperada para a taxa Selic.
É possível observar, ainda, outra mudança relevante no Focus. Entre os analistas que revisaram suas projeções nos últimos cinco dias, a mediana das expectativas para o IPCA em 2022 passou de 3,51% para 3,67%. Além disso, já no início do mês, quando o BC divulgou a distribuição de frequência das expectativas dos economistas de mercado para o IPCA, era possível observar uma cauda maior nas estimativas de inflação acima do centro da meta no ano que vem.
Nesse sentido, o movimento de reprecificação das expectativas é “natural”, na avaliação do economista-chefe da Garde Asset Management, Daniel Weeks, cujas projeções apontam para o IPCA em 5,4% no fim deste ano e em 3,7% em 2022. “É uma sinalização que reforça a nova abordagem do BC de reagir mais forte agora”, afirma.
Weeks lembra que a autoridade monetária já contratou uma nova alta de 0,75 ponto percentual da Selic em maio pensando no movimento de piora das expectativas de inflação e, por isso, acredita que a opinião do BC não deve mudar muito agora. No entanto, para o profissional, o movimento deve resultar “em um orçamento maior do que o BC tinha sinalizado na última reunião”. Não por acaso, a Garde projeta uma normalização total da política monetária, que deve levar a Selic a 6% no fim deste ano e a 6,5% em 2022.
“Nas últimas lives, os diretores Bruno Serra e Fabio Kanczuk apontaram que [o ajuste parcial dos juros] era uma sinalização, não um compromisso. Ao longo do caminho eles devem ajustar a comunicação”, afirma Weeks. Para ele, portanto, o mais provável é que o BC pare as altas de juros quando a Selic chegar ao nível neutro. “Não vejo ele subindo a Selic além do neutro, a não ser que haja uma piora fiscal muito grande que gere um cenário mais adverso”, diz.
Na avaliação de Carlos Kawall, diretor do ASA Investments e ex-secretário do Tesouro Nacional, “o que chama atenção nesses 3,60% do Focus de hoje é que a curva de inflação de 2022 começa a andar na direção de um patamar maior, na direção de uma desancoragem”. Para ele, essa questão é preocupante e exige uma reação do BC.
“O que eu acredito é que as pessoas estão olhando a inércia inflacionária, que está maior, e jogando para o ano que vem. Quem está mais otimista com PIB tem mais incentivo para fazer isso por ver um fechamento mais rápido do hiato. Além disso, 2022 é ano eleitoral e pode haver pressão sobre o câmbio.”
“O BC deveria reagir a esse possível descolamento da inflação de 2022? Eu entendo que sim. Qual seria a maneira? Na sua comunicação ser mais ‘data dependent’. Isso significa que ele deixaria de lado a normalização parcial”, aponta Kawall. Para o diretor do ASA Investments, o mais óbvio do ponto de vista da política monetária seria o BC elevar a Selic em 0,75 ponto em maio e deixar sua ação subsequente dependente de dados.
Kawall acredita que o BC poderia optar por acelerar o ritmo já em maio e elevar o juro básico em 1 ponto percentual, mas ressalta que a comunicação da autarquia tem apontado para uma alta de 0,75 ponto. “O próprio BC disse que seria muito difícil fazer algo além. Estamos tendo alguma moderação no curto prazo da inflação, claro que com as expectativas de 2021 razoavelmente acima do centro da meta, e temos também a questão da covid. Não sei se seria o caso de acelerar, mas não dá para descartar”, aponta. No fechamento de ontem, a curva de juros precificava 60% de chance de um aumento de 0,75 ponto em maio.
O mais importante no momento é o BC dizer que fará o necessário para ancorar a inflação na meta, de acordo com Kawall. Para ele, como o BC tem reafirmado que fará um ajuste parcial, existe a crença de que a normalização irá parar em um nível abaixo do neutro e, assim, as expectativas de inflação sobem. O ASA Investments trabalha com um cenário de Selic em 6% neste ano e em 6,5% em 2022.
Uma das casas a revisar na semana passada o seu cenário de inflação foi o J.P. Morgan, que agora projeta o IPCA em 3,7% no fim de 2022 devido a uma inflação “reprimida” que será empurrada para o ano que vem. O J.P., contudo, manteve inalterado o cenário projetado para a taxa básica de juros ao esperar que a Selic seja elevada a 5,5% neste ano e que permaneça nesse nível ao menos até o fim de 2022.
O economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato, concorda com a visão de que uma desancoragem das expectativas de inflação de 2022 seria um movimento incômodo para o BC. “Quando eu penso na decisão de política monetária com as expectativas ancoradas ao redor de 3,50% e com o câmbio em torno de R$ 5,70 por dólar, não vejo motivo para o BC acelerar o ritmo de alta [da Selic] para 1 ponto percentual. E se a expectativa estiver em 3,70%? Aí o BC se incomodaria mais e poderia ou acelerar o passo ou tirar a referência de uma remoção parcial”, afirma.
Honorato, contudo, ressalta que há “tempo suficiente” para quem acha que a inflação vai sair de controle calibrar as apostas para a Selic. “Isso ainda está um pouco confuso. Qual o movimento por trás da elevação das projeções de inflação de 2022? Acredito que o Brasil não está em dominância fiscal e que tem tempo para a inflação convergir para a meta no ano que vem. Apesar de o BC ter dito que haverá um ajuste parcial, ele tem um compromisso com o centro da meta de inflação”, diz o economista do Bradesco.
No cenário básico do banco, inclusive, a projeção para a inflação está em 5% neste ano e ancorada na meta de 3,5% em 2022. Já em relação à trajetória para a taxa básica de juros, o Bradesco trabalha com um cenário em que a Selic encerrará este ano em 5,25% e chegará a 6,25% no ano que vem. “Se houver uma pressão maior para a inflação em 2022, o que vai mudar é a minha projeção de Selic”, diz Honorato. “Claro que é um ano de incertezas por ter eleições, existe possibilidade de depreciação adicional do câmbio, mas, aos olhos de hoje, elevar as estimativas para a inflação de 2022 me parece prematuro.”
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Victor Rezende — De São Paulo, 20/04/2021

