O Comitê de Política Monetária (Copom) chegou a discutir uma redução da taxa Selic para baixo dos 11,25% na última reunião, por considerar que as condições para um corte mais intenso estavam dadas. Mas, por cautela, acabou optando pelo corte de um ponto, como a maioria do mercado previa. Ao revelar esse debate na ata do Copom, divulgada ontem, a autoridade monetária abriu espaço para apostas numa nova aceleração do ritmo de corte de juros ­ o que já se refletiu numa queda expressiva dos juros futuros e também mudanças em algumas análises de economistas. A dúvida, no entanto, é se as condições necessárias voltarão a estar reunidas em maio. Ou seja, se a janela de oportunidade para um corte mais forte não ficou para trás.

Os juros futuros reagiram em queda ontem na BM&F e, no melhor momento do dia, chegaram a considerar chances iguais para cortes de 1 ponto e de 1,25 ponto no próximo encontro. No fechamento da sessão, o placar voltou a ficar mais favorável para a repetição da dose, com cerca de 80% de probabilidade. Entre especialistas, também ficou consolidada a visão de que um corte mais forte do que o definido em abril, no mínimo, não pode ser descartado.

Para o economista Thiago Curado, da 4E Consultoria, o BC parece corrigir um "pequeno erro" cometido em abril, que foi o de não optar por uma redução mais intensa já naquele encontro, mesmo diante de um cenário de elevada ociosidade da economia, ritmo muito gradual de recuperação da atividade e forte desinflação. "Os argumentos eram mais fortes para um corte maior na reunião passada, e talvez o BC não tenha optado por acelerar ainda mais porque não havia sinalizado e não quis pagar o custo de surpreender o mercado mais uma vez", afirma Curado. O cenário agora, diz, é de piora em termos de riscos políticos assim como a atividade econômica está melhor do que estava em abril.

Ainda assim, o economista da 4E acredita que o BC sinalizou que considera voltar a acelerar o ritmo. E, para ele, somente será impedido caso ocorra um agravamento do cenário político que coloque em risco a reforma da Previdência. "Não se trata de um ciclo maior, mas de uma antecipação, dado que o juro real ainda é bastante contracionista", diz Curado. "Quanto antes o BC conseguir colocar o juro real num nível expansionista ou, pelo menos, neutro, melhor."

Para Mário Mesquita, economista-­chefe do Itaú Unibanco, a ata sinalizou queda de mais um ponto da taxa Selic na reunião de maio, mas não fechou a porta para uma antecipação maior do ciclo de flexibilização monetária. "A minha leitura para o comunicado do Copom sugeriu que o risco em torno de [queda] de 100 pontos ­base era simétrico. A ata me trouxe para uma leitura de um risco assimétrico, ou seja, é 100 pontos ou é mais de 100 pontos e não escutei nada diferente no discurso do Ilan [Ilan Goldfajn, presidente do BC, em evento ontem do Itaú]", disse. Segundo ele, o Banco Central vai rever sua decisão a depender da aprovação das reformas e da intensidade da retomada da economia.

Para Luiz Eduardo Portella, sócio-­gestor da Modal Asset Management, não há dúvidas de que a ata do Copom colocou na pauta o risco de o BC voltar a acelerar o ritmo de corte de juros. A questão é que, agora, o espaço para cortes maiores tende a diminuir à medida que o juro se aproxime do nível neutro. "O BC perdeu uma oportunidade de ajudar na recuperação da economia, uma vez que os modelos permitiam essa aceleração", afirma Portella, um dos poucos no mercado a trabalhar com a expectativa de um corte mais ousado da Selic em abril, para 11%.

Essa aceleração de ritmo para 1,25 ponto em maio já passou a ser o cenário base do sócio­-gestor da Leme Investimentos, Paulo Petrassi. Esse cenário, contudo, contempla a aprovação da reforma da Previdência, com mudança em alguns pontos. Ele ressalta que o essencial é ver que a inflação está baixa e a atividade econômica segue fraca. Ao fim do ciclo de flexibilização, provavelmente em setembro, a Selic deve recuar até 8,5% ao ano, acrescenta. Embora uma nova aceleração do ritmo esteja colocada, na visão de Daniel Weeks, economista-­chefe da Garde Asset Management, é condição básica para que esse corte mais forte ocorra o andamento consistente da reforma da
Previdência. "E não foi o que vimos nas últimas semanas", diz. "O piso de flexibilização parece ser de 1 ponto e o corte de 1,25 ponto depende do político", acrescenta.

Já Fernando Honorato, economista-­chefe do Bradesco, acredita que o Copom só vai aprofundar o corte caso haja uma nova frustração com o desempenho da economia, juntamente com uma maior desaceleração da inflação. "Esperamos novo corte de 1 ponto da taxa Selic na próxima reunião, mantido o cenário atual", destacou em relatório Honorato, que espera que, no fim de 2017, a taxa Selic atinja 8,5%.

Ainda segundo ele, o BC reduziu o senso de urgência de corte da Selic por conta do desempenho da atividade econômica, ao sinalizar que a economia mostra sinais de estabilização. Além disso, diferentemente dos documentos anteriores, nos quais o Copom destacava que a recuperação da atividade poderá ser mais gradual que a esperada anteriormente, a ata colocou a possibilidade de que a retomada também poderá ocorrer de forma menos lenta que a antecipada, observou o economista.

Por causa da afirmação da ata de que "a intensificação do ritmo equivale a um maior grau de antecipação do ciclo", a maior parte dos economistas mantém a expectativa de que o juro chegará a 8,5% no fim deste ano ­ projeção que consta da pesquisa Focus. Mas, para o BNP Paribas, a aprovação das reformas estruturais pode permitir que o Banco Central reduza o juro ainda mais, para baixo de 8% neste ano. Em relatório, a equipe de pesquisa liderada por Marcelo Carvalho diz que não se surpreenderá se as discussões começarem a trazer cenários em que a taxa cai ao intervalo de 7% a 8%. (Colaboraram Silvia Rosa, José de Castro e Arícia Martins)

Fonte: Valor - Finanças , por Lucinda Pinto Lucas Hirata, 19/04/2017