O pacote de projetos e concessões na área de infraestrutura do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) anunciado pelo governo neste ano, que deve somar R$ 45 bilhões, tende a impulsionar as operações de financiamento de projetos ("project finance") nos bancos. Neste ano, até 4 de abril, o volume de financiamento de projetos somava US$ 3,549 bilhões (cerca de R$ 11,2 bilhões), com um total de 50 operações, aumento de 77,9% em relação ao mesmo período do ano passado, que registrou US$ 1,995 bilhão referente a 27 projetos, segundo levantamento da Dealogic.
Com o BNDES deixando de atuar na concessão de "empréstimo-ponte", que era concedido em um primeiro momento, até a solução de longo prazo sair, os bancos privados devem aumentar a participação no financiamento de projetos por meio da estruturação de operações nos mercados de capitais ou com uma maior oferta de fiança bancária.
Em 2016, o volume em project finance somou US$ 10,261 bilhões, em 138 operações, queda de 49,7% em relação ao registrado em 2015, com o governo tendo postergado alguns leilões e concessões para este ano e as empresas reduzindo investimentos.
Se a perspectiva para este ano é de aumento nessas operações, vale ponderar que boa parte dos financiamentos para as concessões leiloadas em 2017 só deve se concretizar, de fato, a partir do ano que vem. "Esperamos ligeiro aumento das operações de project finance neste ano em relação a 2016, mas devemos ver o financiamento das concessões que devem vir a mercado neste ano mais em 2018", diz Diogo Berger, chefe de project finance do Santander. O banco tem 70 projetos em carteira.
Em geral, cerca de 70% a 80% do financiamento dos projetos são viabilizados por meio de dívida e entre 20% a 30% via recursos próprios dos controladores do empreendimento. A concessão do financiamento é baseada na receita futura do empreendimento.
Com a saída de cena do empréstimo-ponte, o financiamento de longo prazo deve ser estruturado desde o início do projeto. "Esse modelo é muito mais saudável. Antes, o empréstimo-ponte era concedido considerando que em algum momento no futuro seria liberado os recursos via BNDES ou mercado de capitais. Mas, às vezes, o financiamento de longo prazo demorava para sair", afirma Alexandre Teixeira, diretor de renda fixa e project finance do Itaú BBA. Os bancos podem conceder a chamada fiança bancária até a fase de "completion", em que assumem os riscos durante a construção, até o projeto começar a gerar receita. Essa fase do projeto também pode ser financiada via emissão de debêntures de infraestrutura, que contam com isenção fiscal para pessoas físicas.
Segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), no ano passado houve aumento da participação dos instrumentos de mercado de capitais na composição das fontes de financiamento, que passou de 3,8% em 2015 para 17% em 2016, grande parte devido a emissões de debêntures incentivadas. O BNDES reduziu os repasses de recursos que são ofertados pelos bancos, de 17,4% para 4,8% no período, se concentrando mais em desembolsos diretos de longo prazo.
O responsável pela área de project finance do Bradesco BBI, Rui Gomes da Silva Júnior, acredita que não vai faltar apetite dos bancos privados para financiar bons projetos e que o volume de fiança bancária tende a crescer. "Os bancos comerciais conhecem bem os projetos de infraestrutura e sabem absorver o risco de ′completion′", diz. O banco está envolvido na assessoria e estruturação financeira de cerca de 125 projetos, que totalizam aproximadamente R$ 173 bilhões em investimentos.
Um dos pleitos dos bancos para que as operações de fiança bancária prosperassem era o compartilhamento das garantias com o BNDES. O banco de fomento anunciou que vai compartilhar com bancos as garantias e fianças dos contratos de financiamento de projetos no período précompletion (de conclusão das obras).
Nesses casos, os bancos ficam com as garantias proporcionais ao risco assumido no financiamento durante essa fase de construção. "Isso vai ajudar a aumentar o apetite dos bancos e atrair novos participantes", diz Diogo Berger, chefe de project finance do Santander.
No caso dos leilões de linha de transmissão, o BNDES só pode estruturar os financiamentos a taxa de mercado. No próximo leilão da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), marcado para o próximo dia 24, com estimativa de investimentos de R$ 13,1 bilhões, o banco poderá participar com 80% dos itens financiáveis, mas o custo do empréstimo será a uma taxa prefixada mais o IPCA. O banco também poderá subscrever até 100% da emissão de debêntures de infraestrutura realizada pelo concessionário. "O funding subsidiado vai tendo menos importância à medida que os projetos já são considerados a taxas de mercado e tem vindo com retornos melhores", diz Teixeira, do Itaú BBA.
O banco BNP Paribas, que assessorou a operadora de aeroportos francesa Vinci, que levou a concessão do aeroporto de Salvador em leilão em março, tem interesse em participar do próximo leilão de transmissão. Além dessas operações, o banco conta com projetos de energia eólica em carteira, que somam 1,5 gigawatts e R$ 10 bilhões em investimentos.
Com as grandes construtoras envolvidas na Operação LavaJato, o perfil dos participantes dos leilões têm mudado. Fundos de private equity e de pensão estrangeiros têm mostrado interesse em participar dos próximos leilões. O Pátria, por exemplo, foi vencedor do leilão do lote Centro-Oeste de rodovias do Estado de São Paulo. Agentes do mercado não descartam a participação da gestora no próximo leilão de linhas de transmissão. Em 2016, o Pátria arrematou dois lotes nos leilões de linhas de transmissão.
Ainda está programado para este mês o leilão do lote da Rodovia dos Calçados, de 720 quilômetros entre Itaporanga e Franca, cujas propostas serão recebidas no dia 25. O valor de outorga é de R$ 450,9 milhões, devendo somar R$ 5 bilhões em investimentos.
A entrada dos fundos requer mudança na avaliação dos financiamentos, dizem especialistas. "Como não há garantia corporativa é preciso avaliar bem a capacidade de implementação do projeto", diz Gomes, do Bradesco. Os projetos também podem contar com a avaliação de consultores de engenharia externos ou ser exigido, em alguns casos, que o responsável pelo projeto aloque a participação mínima de capital antes da dívida ser desembolsada, afirma Berger, do Santander.
Outra saída, segundo o executivo do BNP Paribas, é transferir os riscos do projeto para a construtora contratada pelo fundo. Em caso de atraso na obra, ela seria responsável pelo aumento dos custos. "O mais importante é assegurar que o projeto está bem avaliado em termos de recursos e prazo de construção", afirma Gaétan Quintard, gerente executivo da área de project finance do banco BNP Paribas.
No caso de projetos do PPI, a participação máxima de financiamento do BNDES a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), hoje em 7%, varia de acordo com o setor, sendo de até 80% dos itens financiáveis para saneamento e mobilidade urbana, 50% para rodovias e 40% em aeroportos. Os projetos devem contar com aporte mínimo de 20% de recurso próprio. O banco ainda poderá subscrever até 50% de debêntures emitidas para financiar o projeto. Além dos projetos do PPI, o executivo do Santander afirma que devem ser fechadas operações de financiamento de energia eólica e solar ainda no primeiro semestre.
A Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib) estima que há demanda de investimentos em infraestrutura equivalente a 5% do PIB, o que daria um montante de R$ 300 bilhões por ano pelos próximos dez anos, excluindo o setor de óleo e gás. "Não temos um problema de falta de funding, mas sim de projetos em estágio maduros para licitar", afirma Venilton Tadini, presidente-executivo da Abdib.
Fonte: Valor - Finanças , por Silvia Rosa , 17/04/2017

