volume de serviços prestados no país teve alta de 3,7% em fevereiro, perante o mês anterior, conforme dados da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) divulgados nesta quinta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É a nona taxa seguida positiva, na série com ajuste sazonal, e o setor acumula ganho de 24% nesse período. Com o resultado de fevereiro, o volume de serviços supera, pela primeira vez, o nível pré-pandemia: está 0,9% acima de fevereiro de 2020.
“Quando a gente atinge patamar 0,9% acima de fevereiro de 2020, isso não significa que o setor de serviços recuperou as perdas. Ele voltou ao patamar de fevereiro de 2020, mas as perdas estão dadas e podem ser melhor observadas nas comparações com o ano anterior”, diz. “Isso reflete a manutenção de um patamar ainda muito baixo de prestação de serviços presenciais. Quando comparado com período de pandemia, ainda há um grande distanciamento nos serviços de caráter presencial, capitaneados pelos serviços às famílias”, afirma o gerente da pesquisa, Rodrigo Lobo.
Na comparação com fevereiro de 2020, o indicador apresentou queda de 2%. O número é a 12ª taxa negativa seguida na comparação anual do indicador.
No resultado acumulado em 12 meses até fevereiro, houve recuo de 8,6%, a maior da série histórica da pesquisa, iniciada em dezembro de 2012 para este indicador. Este é o 14º mês seguido de recuo nesta base de comparação - trajetória negativa começou em janeiro de 2020.
Todas as cinco atividades acompanhas pela pesquisa tiveram alta na passagem entre janeiro e fevereiro. O destaque foi para a atividade de transportes, serviços auxiliares aos transportes e correio, que avançou 4,4% e acumulou ganho de 8,7% no ano, superando em 2,8% o nível de fevereiro de 2020.
Já os serviços profissionais, administrativos e complementares tiveram elevação de 3,3%, acompanhados por variação de 8,8% dos serviços prestados às famílias. Os dois segmentos ainda se encontram, no entanto, em patamar inferior ao de antes da pandemia, de decréscimo de 2% e de 23,7%, respetivamente.
As outras altas foram registradas em outros serviços (4,7%) e em informação e comunicação (0,1%), setores que se encontram 1% e 2,6% acima do nível de fevereiro de 2020.
O IBGE informou ainda que a receita nominal subiu 2,8% na passagem entre janeiro e fevereiro. Na comparação com fevereiro de 2020, a receita de serviços diminuiu 1,6%.
Em fevereiro, perante o mês anterior, 18 das 27 unidades da federação investigadas registraram taxas positivas, com destaque para São Paulo (4,3%), Minas Gerais (3,5%), Mato Grosso (14,8%) e Santa Catarina (3,9%). Já o Distrito Federal (-5,1%) teve a principal retração.
O IBGE revisou, ainda, a taxa de variação no volume de serviços divulgada anteriormente para o mês de janeiro, na comparação com dezembro de 2020. Nessa comparação, a variação no volume de serviços em janeiro passou de variação de 0,6% para 0,1%.
Impacto da pandemia
O contexto “absolutamente atípico” da pandemia trouxe impacto para a série com ajuste sazonal da pesquisa de serviços e pode significar “uma quebra estrutural importante do próprio modelo de ajustamento sazonal”, afirmou nesta quinta-feira o gerente da pesquisa do IBGE, Rodrigo Lobo.
Ele esclarece que não há problemas com o modelo, mas defende que, para avaliar o momento atual do setor de serviços, é preciso levar em consideração as demais bases de comparação, como o desempenho da média móvel trimestral e do indicador que compara com igual período do ano anterior.
“É o melhor modelo, o modelo não tem nada de errado, isso é importantíssimo ressaltar. Fizemos conversas internas com técnicos nossos que confirmaram que é simplesmente uma dificuldade do modelo de ler um contexto absolutamente atípico que estamos vivenciando. Nesse contexto, a leitura dos dados é melhor vista com o prazo mais alongado”, aponta Lobo.
A série com ajuste sazonal é aquela que compara o desempenho de um determinado mês com o mês imediatamente anterior. Para isso, há um modelo matemático que faz os acertos do desempenho de acordo com aquele período do ano, para retirar os efeitos de eventos específicos.
Ele lembra que o sistema de ajustamento sazonal está preparado para a inclusão de determinados pontos – como o carnaval, a páscoa e o número de dias úteis – e não pode ser alterado de uma hora, até porque é usado para as consultorias econômicas para a realização de suas projeções.
O desempenho dos serviços prestados às famílias nos meses de julho de 2020, e em dezembro de 2020 e janeiro de 2021, sugerem, no entanto, segundo Lobo, essa “quebra estrutural do modelo”. Em julho de 2020, por exemplo, os serviços prestados às famílias tiveram queda expressiva, embora o período tenha sido de maior flexibilização social, o que deveria sugerir um avanço no volume de serviços.
“A queda de julho, as duas quedas, de dezembro de 20 e de janeiro de 2021, e essa taxa mais positiva do mês de fevereiro podem ter a ver com uma dificuldade de entendimento do modelo. (...) A pandemia trouxe uma quebra estrutural num modelo, que era longo, mas se confunde um pouco. Aqui não era para estar vindo crescimento? Aí ele vem e mostra queda. Aqui não era para estar vindo queda? Ele mostra crescimento”, explica.
Por isso, defende Lobo, é preciso relativizar os dados da série com ajuste sazonal – que teve forte crescimento em fevereiro, com alta de 3,7%, após variação de 0,1% em janeiro – e levar mais em consideração outros indicadores, como o recuo de 2% em fevereiro frente a igual mês de 2020 e as quedas de 3,5% no resultado acumulado em 2021 e de 8,6% no resultado acumulado em 12 meses.
“Em vista de algum tipo de dificuldade que o ajustamento sazonal possa estar mostrando para determinadas séries, recomendo a leitura do dado da média móvel trimestral e a paciência para que tenhamos novas informações nos próximos meses, para que o dado possa ser melhor ajustado mês a mês, a cada entrada de uma nova informação”, diz.
Lobo acrescentou que, “dado esse horizonte do aumento de casos de covid e de mortes, e a evolução da vacinação, é preciso ver como vai impactar as empresas e as famílias nos próximos meses".
Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Lucianne Carneiro, Valor — Rio, 15/04/2021

