A entrega dos primeiros edifícios residenciais retrofitados no Centro de São Paulo tem trazido não apenas novos moradores à região como também vem chamando atenção do setor corporativo. São empresas em busca de conexão com a ressignificação urbana da área e de mais proximidade com seus colaboradores que vivem nos bairros centrais.

O raciocínio é simples: embora haja uma farta oferta de mobilidade urbana, as pessoas tendem a preferir trabalhar mais perto de casa. Assim, companhias de diferentes segmentos começam a se movimentar rumo ao Centro.

É o caso da Heartman House, uma consultoria de gestão e estratégia de negócios que atende gigantes do varejo como Magalu e Renner. Com mais de cem colaboradores, a empresa trocou o escritório na Avenida Chucri Zaidan, na Zona Sul, por uma ampla área na recém-reinaugurada laje corporativa do Edifício Copan.

“Mudamos em janeiro. O nível de satisfação do time com o ambiente de trabalho saltou de 35% para mais de 90%”, garante Vinicius Garcia, sócio-diretor da Heartman, acrescentando que a decisão teve a ver com o propósito de resgate do Centro. “Acontece em grandes cidades do mundo. Em Nova York, a sede do Google fica no centro da cidade. Amazon e Twitter também, em Seattle e San Francisco”, argumenta Garcia.

Entrada do espaço corporativo do Copan: projeto da Architects Office — SP para a Ilion Partners mantém a identidade modernista do lugar — Foto:  ILION PARTNERS/DIVULGAÇÃO

Entrada do espaço corporativo do Copan: projeto da Architects Office — SP para a Ilion Partners mantém a identidade modernista do lugar — Foto: ILION PARTNERS/DIVULGAÇÃO

 

No aspecto financeiro, o diretor garante que valeu a pena. A valor de mercado, o metro quadrado de locação no bairro anterior gira em torno de R$ 90 a R$ 100. No Copan, custa R$ 60.

A laje corporativa, com 4,5 mil metros quadrados, pertence ao portfólio do fundo de investimento Ilion Partners e custou R$ 20 milhões. Além da Heartman, o Greenpeace também está de mudança para lá. Há ainda dois mil metros em negociação. O foco são companhias dos setores de tecnologia e da economia criativa.

“O retrofit residencial realmente tem sido o motor desse mercado no Centro. Porém, com a vinda das pessoas para morar na região, vem à tona imediatamente a questão do trabalho”, diz Maxime Barkatz, CEO e fundador da Ilion, ao justificar o investimento.

Para ele, muitas corporações passarão a olhar para os bairros centrais a fim de atender a essa demanda. “Até a Avenida Paulista tende a se valorizar como destino de novas empresas”, estima.

Sofisticação art déco da fachada do empreendimento Basílio 177, da incorporadora Metaforma: alto padrão em pleno centro paulistano — Foto: METAFORMA/DIVULGAÇÃO

Sofisticação art déco da fachada do empreendimento Basílio 177, da incorporadora Metaforma: alto padrão em pleno centro paulistano — Foto: METAFORMA/DIVULGAÇÃO

 

OUTRAS REGIÕES

O reposicionamento de edifícios comerciais ou corporativos tem acontecido também em outras regiões da cidade. Há oportunidades até mesmo em bairros onde o mercado de empreendimentos “greenfield” está aquecido.

“O retrofit faz sentido em qualquer lugar da cidade em que não houver terrenos disponíveis ou quando eles se tornam caros demais para incorporar”, avalia André Glogowsky, executivo membro do Conselho da HTB Engenharia e Construção.

A companhia está por trás de projetos famosos no segmento, como os do Hotel Palácio Tangará, no Panamby, e da Avenues — The World School, no Real Parque. Em ambos, estruturas preexistentes foram ressignificadas.

“Prédios antigos costumam ser mais defasados e requerem engenharia mais pesada para adaptar fundações e atualizar ambientes e sistemas de refrigeração, elétrico e hidráulico para melhorar o conforto e o desempenho do prédio”, explica Glogowsky.

 

Residenciais combinam legado e luxo

 

O momento é de aprovações, entregas de edifícios e lançamentos luxuosos para moradias. A prefeitura autorizou o primeiro projeto do Requalifica Centro

Cafeteria no térreo do Edifício Virgínia: projeto contará com mix de tipologias de apartamentos e restaurante no “rooftop” — Foto: SOMAUMA/DIVULGAÇÃO

Cafeteria no térreo do Edifício Virgínia: projeto contará com mix de tipologias de apartamentos e restaurante no “rooftop” — Foto: SOMAUMA/DIVULGAÇÃO

 

Neste mês de abril, a Metaforma coloca no mercado o Basílio 177, com 274 unidades, entre as ruas Basílio da Gama e Sete de Abril. Serão três prédios, o principal deles, de 1939 e em art déco, foi assinado pelo escritório do arquiteto Ramos de Azevedo — o mesmo que projetou o Theatro Municipal paulistano. Fechada desde 2010, a propriedade pertenceu à Telesp.

Com apartamentos de até 130 metros quadrados, que serão vendidos por cerca de R$ 1,3 milhão, e um “food hall” no térreo, o empreendimento pode ser categorizado como alto padrão, na avaliação de Bruno Scacchetti, CEO da Metaforma.

“Ele remete ao luxo pela alta qualidade construtiva, o refinamento embarcado no ativo e a exclusividade, pois é um projeto que não pode ser replicado. Além disso, carrega um propósito, que é a preservação do legado arquitetônico da cidade”, diz.

Outro lançamento oficial que deve agitar o mercado imobiliário do Centro a partir de agosto é o Edifício Virgínia. O condomínio original, de 1949, pertenceu à família Matarazzo e está dividido em dois prédios. Os apartamentos variam de 26 a 182 metros quadrados. No “rooftop”, haverá um restaurante, e no térreo, uma cafeteria.

“Esse mix variado de tipologias visa trazer uma pluralidade de moradores que é típica do Centro”, conta Marcelo Falcão, gestor de Novos Negócios da Somauma, que desenvolve o empreendimento.

A incorporadora entrega outro projeto neste ano, o Edifício General Jardim, com 105 unidades para locação na Vila Buarque. Além disso, Falcão anuncia a aquisição de outros dois prédios para retrofit, totalizando 400 apartamentos.

 

O executivo vê com otimismo o momento do retrofit na cidade. “Pela primeira vez, enxergo o poder público, a iniciativa privada, os criativos e a sociedade de uma maneira geral empenhados em fazer acontecer”, comemora.

 

Fonte: Valor Econômico - Por Imóveis de Valor, 14/04/2023