O Comitê de Política Monetária (Copom) aproveitou a ata da 182ª reunião para defender sua política monetária, ainda que ela tenha sido discutida antes do forte IPCA de março (alta de 0,92%) ser conhecido. Não há mudanças substanciais na avaliação do ritmo da atividade doméstica ou do cenário externo, e as projeções para preços administrados e comportamento das commodities repetem o Relatório de Inflação, divulgado no fim de março.

A novidade mais expressiva é o parágrafo 32. Nele, o BC reforça sua atuação, a defende e, de certa forma, pede calma. Para fazer isso, inclusive, deslocou trechos de lugar e trouxe para ele a ideia de que "os efeitos das ações de política monetária sobre a inflação são cumulativos e se manifestam com defasagens". Mas o parágrafo aprofunda a defesa e insiste na ideia de que a resposta da economia brasileira ao atual ciclo de aperto monetário está ocorrendo "normalmente".

Diz o trecho: "Para o Copom, considerando-se a experiência brasileira na vigência do regime de metas, infere-se que, de modo geral, as trajetórias de importantes indicadores econômicos durante o atual ciclo de ajuste da taxa Selic, bem como as perspectivas para essas trajetórias nos próximos trimestres, apresentam-se em linha com o que se poderia antecipar. Dessa forma, as informações disponíveis sugerem que os impulsos monetários introduzidos na economia desde abril de 2013 têm se propagado normalmente por intermédio dos principais canais de transmissão e que assim tendem a continuar nos próximos trimestres. Nesse sentido, como os efeitos das ações de política monetária sobre a inflação são cumulativos e se manifestam com defasagens, o Comitê entende que parte significativa da resposta dos preços ao atual ciclo de aperto monetário ainda está por se materializar. Além disso, é plausível afirmar que, na presença de níveis de confiança relativamente modestos, os efeitos das ações de política monetária tendem a ser potencializados".

Na sequência, o BC repete uma ideia anterior, a de que "em momentos como o atual a política monetária deve se manter vigilante de modo a minimizar riscos de que níveis elevados de inflação, como o observado nos últimos doze meses, persistam no horizonte relevante para a política monetária". Na ata anterior, contudo, havia um "especialmente" a acompanhar a vigilância. Sem ele, é como se a autoridade monetária pudesse relaxar um pouco mais. A questão é: será que esse "relaxamento" foi abortado pela inflação de março?

Quando o Copom discutiu o que fazer com a taxa de juros, uma semana atrás, o IPCA não era conhecido, mas todas as projeções já indicavam um percentual bastante elevado, com a média das projeções rodando 0,84%. Naquela oportunidade, outros índices de inflação (IPCA-15, com alta de 27% em passagens aéreas, e IPC da FGV com 0,85% para março) deixavam clara a aceleração dos preços. Mesmo diante do quadro de aceleração da inflação em março, a autoridade monetária decidiu trocar o "especialmente vigilante" pelo "vigilante". Por via das dúvidas, a defesa foi reforçada.


Fonte: Valor, por Denise Neumann, 11/04/2014