Na avaliação de economistas ouvidos pela Folha, o resultado do IPCA (índice oficial de inflação no país) em março levanta uma dúvida sobre o destino da taxa básica de juros nacional, a Selic.
Nesta manhã, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou que a inflação no país subiu 0,47% em março. O número é menor que o avanço de 0,60% registrado em fevereiro.
Em janeiro, o IPCA havia sido de 0,86% e só não bateu a casa de 1% porque o governo pediu aos governos do Rio e de São Paulo o adiamento do reajuste dos ônibus. De janeiro a março, o índice acumula alta de 1,94%.
Em 12 meses, o indicador acumula alta de 6,59%, acima do teto da meta do governo, de 6,5%.
"Já era esperado que o resultado de 12 meses fosse ultrapassar o teto da meta do governo. O mercado sabia que isso aconteceria em todos os cenários, até naqueles que previam um avanço de apenas 0,3% nos preços em março", disse Paulo Gala, economista da corretora do Banco Fator.
Mesmo concordando com a avaliação de Gala, a economista Priscila Godoy, da consultoria Rosenberg & Associados, avalia que o aumento da inflação em 12 meses "é preocupante."
"O Banco Central acaba perdendo credibilidade. Embora já fosse esperado que a inflação deveria ultrapassar o teto da meta do governo em 12 meses, não podemos ver isso com tranquilidade", disse Priscila.
COPOM E SELIC
Segundo Gala, o resultado do IPCA era bastante esperado porque ele poderia dar uma noção ao mercado sobre qual será a decisão do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) em relação à Selic, na reunião da autoridade que ocorre na semana que vem.
Essa noção, porém, não veio, segundo o economista. "No geral, o resultado veio um pouco abaixo do esperado pelo mercado [0,5% em março], o que levanta uma dúvida sobre o posicionamento do Copom sobre a Selic. Se em março o avanço fosse de 0,3%, ficaria claro que a Selic seria mantida. Se viesse acima de 0,5%, também ficaria claro que a taxa [Selic] seria elevada. Mas 0,47% é um meio termo."
Para Priscila, o resultado dá margem para que o mercado acredite em uma nova manutenção do juro básico nacional, assim como no mês passado, quando o Copom manteve a Selic em 7,25% ao ano --menor nível histórico.
Foi a terceira reunião seguida em que a taxa foi mantida. O último corte, de 7,5% para 7,25% ao ano, ocorreu em outubro de 2012. Desde agosto de 2011, a Selic caiu 5,25 pontos percentuais, em dez reduções consecutivas.
"De qualquer jeito, eu prefiro acreditar que o Copom vai subir em 0,25 ponto percentual a Selic na semana que vem, para 7,5% ao ano", disse Priscila.
"O resultado do IPCA de março pode até ter vindo um pouco abaixo do esperado, mas o resultado em 12 meses reforça a necessidade do BC elevar a Selic. Quanto antes o BC der início ao aperto monetário, mais breve virão os impactos positivos à inflação e, consequentemente, a duração do ciclo de aumento da Selic pode ser menor", completou a economista da Rosenberg.
Nesta semana, o governo deu indícios de que o BC pode promover uma alta na Selic na reunião desse mês. O tema foi discutido anteontem durante almoço da presidente Dilma e do ministro Guido Mantega (Fazenda) com os economistas Delfim Neto, Luiz Gonzaga Belluzzo e Yoshiaki Nakano.
A avaliação é que a alta de preços em patamar elevado pode desencadear uma onda ainda mais forte de indexação, difultando o combate à inflação.
INFLAÇÃO NO TRIMESTRE
No primeiro trimestre deste ano, a inflação medida pelo IPCA mostrou alta de 1,94%, acima do avanço de 1,22% visto no mesmo período do ano passado.
Para Priscila, a principal surpresa do período foi o setor de alimentos, que subiu 4,58% entre janeiro e março deste ano.
"Essa variação trimestral é bem elevada. Fiquei surpresa com o setor de alimentos. Eu estava esperando uma desaceleração dos preços nesse setor maior do que a que foi atingida entre janeiro e março deste ano."
Com problemas climáticos, quebras de safra e a chancela da demanda aquecida (que permite um nível maior de repasses de custos), os alimentos foram os vilões da inflação no começo de 2013, com alta de 1,14% em março --em fevereiro, haviam subido 1,45%, pouco abaixo da taxa de 1,99% de janeiro.
Esses fatores praticamente anularam a desoneração de tributos da cesta básica, promovida pelo governo.
Fonte: Folha de São Paulo, 10/04/2013

