No último ano e meio, marcado pelo processo de distensão monetária no Brasil, o Banco Central vem sistematicamente errando para cima suas projeções para variação mensal dos índices de preços. Os dados, divulgados trimestralmente pela autoridade monetária no Relatório de Inflação, mostram que de setembro de 2016 (definido pelo próprio órgão como marco zero do atual ciclo de política monetária) até fevereiro, o BC superestimou a inflação.
Isso só não ocorreu em dezembro do ano passado, quando o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficou em 0,44%, ante uma taxa projetada pelo BC de 0,29%. Nos outros 15 meses, o BC errou sempre para cima as suas projeções mensais para a inflação oficial. A soma simples desses erros é de 2,36 pontos porcentuais, ou seja, esse é o montante que se pode dizer que é quanto o BC esperou a mais de inflação em todo esse período de um ano e meio de ciclo de afrouxamento monetário.
Se for considerado todo o período de gestão do atual comando do BC, presidido por Ilan Goldfajn, essa soma de erros é um pouco menor: 1,88 ponto porcentual. Isso porque nos primeiros três meses completos de gestão do atual colegiado a autoridade acertou em cheio a projeção de junho de 2016, mas subestimou os dois meses seguintes, que tiveram índices mais altos do que se esperava. A partir de setembro daquele ano é que o BC passou a sistematicamente prever um IPCA maior do que efetivamente se realizou.
Para se ter uma ideia da dimensão, o tamanho do erro no período de distensão monetária representa pouco mais de 50% de toda a inflação do período. Quando se considera desde junho de 2016, a soma dos erros foi equivalente a praticamente um terço da variação de 5,8% acumulada pelo IPCA até fevereiro passado.
O BC não tem errado sozinho nessas projeções mensais de inflação. O mercado também tem, desde o início do atual ciclo monetário, superestimado a inflação, embora não tanto quando o BC. Vale ressaltar, contudo, que acompanhar os erros e acertos do mercado é mais complexo porque os analistas semanalmente revisam suas estimativas, enquanto o BC informa apenas nos relatórios de inflação suas projeções para os três meses seguintes e depois compara o previsto com o dado efetivo.
Mas, para ilustrar, nos últimos 12 meses a inflação efetiva ficou somente em dois meses acima da expectativa coletada no início de cada mês na pesquisa Focus, realizada pelo Banco Central junto aos analistas do mercado financeiro.
Uma fonte do mercado aponta que esses erros sistemáticos por parte do BC podem ser um indício de que a autoridade monetária estaria trabalhando para manter a inflação abaixo do centro da meta, hoje em 4,5% e que para 2019 cairá para 4,25%. Para esse interlocutor, os sinais seriam de que o BC trata o centro da meta mais como teto, calibrando a política monetária para garantir uma inflação mais próxima da banda inferior. Vale lembrar que no ano passado o BC descumpriu a meta de inflação, quando o IPCA ficou em 2,95%, abaixo do piso de 3% para o ano.
Para o economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito, é normal o BC errar suas projeções mensais. "De fato há fatores benignos, como os alimentos, que pressionaram a inflação para baixo. É fácil falar ex-post que o BC errou, mas é natural essas surpresas para baixo", disse. Além desse fator, Perfeito avalia que é preciso considerar-se a hipótese de a reforma trabalhista já não estar desde o segundo semestre contribuindo também para a inflação surpreendentemente menor, já que os preços de serviços tiveram suas taxas acumuladas reduzidas à metade. "O mercado de trabalho está frágil e a reforma trabalhista pode ter provocado uma quebra estrutural na inflação de serviços", disse.
Fonte: Valor - Macroeconomia, por Fabio Graner, 02/04/2018

