A taxa de juros real neutra (aquela que não gera impulso ou contração adicional na economia) no Brasil está em torno de 2,8% ao ano. A conta é da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), em documento do seu departamento de competividade obtido pelo Valor.

Para a entidade, mesmo que a economia acelere do atual ritmo de crescimento de 1,1% verificado nos últimos dois anos para a marca de 2,5% previsto pelo mercado para os próximos períodos, o nível de desemprego só voltaria à marca de um dígito em 2021.

Segundo a Fiesp, o atual nível da Selic (o juro básico do Brasil) de 6,5% ao ano está muito próximo da taxa neutra quando se desconta a inflação. Dessa forma, avalia a indústria paulista, o juro definido pelo Banco Central está bem pouco estimulativo para uma economia com necessidade de acelerar seu ritmo de expansão e reduzir a ociosidade do parque produtivo. "O nível de ociosidade da indústria de transformação permanece elevado, colaborando para baixo crescimento dos investimentos", diz o texto.

O material aponta que hoje a taxa neutra permitiria um crescimento do país em torno de 1,5% a 2%. Mas, com uma ociosidade - diferença entre o Produto Interno Bruto (PIB) potencial e o efetivo - ainda próxima de 4%. "Portanto, há espaço para a redução de juros. Esse movimento ainda não é esperado pelo mercado. A taxa Selic deveria cair para estimular a retomada", diz a Fiesp. "Assumindo a expectativa do mercado de crescimento do PIB para os próximos anos, a ociosidade da economia somente será preenchida entre 2021 e 2022", acrescenta.

O vice-presidente da entidade José Ricardo Roriz Coelho disse ao Valor que a ideia do levantamento é mostrar que a redução dos juros nesse momento não geraria risco relevante de pressão inflacionária e, por outro lado, teria muitas vantagens em termos de geração de crescimento econômico e emprego.

Ele cita a discussão em torno do texto do economista André Lara Rezende ao Valor que aponta que o juro precisa estar abaixo do PIB para não inibir o crescimento, o que estaria ocorrendo no Brasil ao longo das últimas décadas, enquanto outros economistas estariam sempre apontando o risco inflacionário iminente para manter as taxas elevadas. "Não quis entrar em discussão teórica, mas mostrar que os juros podem cair sem causar problemas e seria benéfico para o país", afirmou.

O estudo da Fiesp mostra que o atual ciclo de recuperação econômica após uma recessão é o segundo mais lento da série iniciada nos anos 1980. Além disso, aponta que nos últimos meses tem havido frustração com o ritmo de atividade econômica, em especial no setor industrial. "As expectativas do mercado para o resultado do PIB em 2019 mostram deterioração nas últimas semanas", ressalta o documento, citando a queda de 2,5% para 2% nas projeções de alta do PIB coletada na pesquisa Focus, do Banco Central.

Por outro lado, destaca o material, a inflação está rodando abaixo da meta e as expectativas para este e os próximos anos seguem ancoradas. "Nos últimos anos, o IPCA ficou abaixo da meta. A expectativa é que isso se repita em 2019", disse.


Fonte: Valor, por Fabio Graner - de Brasília, 01/04/2019