Num momento em que a educação vive uma aguda crise política no país, pesquisadores da área apontam a importância crucial do setor para elevar a produtividade do trabalho, uma agenda ainda mais urgente diante do envelhecimento da população, que diminui a cada ano o número de pessoas na ativa.
Em seminário realizado na FecomercioSP na sexta-feira, especialistas apontaram especialmente a necessidade de melhorar a qualidade do ensino médio de aumentar a oferta de cursos de formação profissional.
"Desde 1980, a produtividade não se mexe. Costumo dizer que é um eletrocardiograma de morto", brinca José Pastore, presidente do conselho de emprego e relações do trabalho da entidade. "Há ilhas de excelência, no setor financeiro, de informática e telecomunicações, mas é muito pouco".
Para Rafael Lucchesi, diretor de educação e tecnologia da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a inclusão da formação técnica e profissional no currículo regular da Base Nacional Curricular Comum foi um avanço, que agora precisa ser implementado. "É uma forma de preparar o jovem para o mundo do trabalho, já que no Brasil 83% deles não vão para a universidade. Isso pode resultar em ganho importante de produtividade".
Segundo dados apresentados por Lucchesi, 11,1% dos alunos do ensino médio no Brasil fazem algum tipo de curso de formação profissional, ante 48% na Alemanha, 46% em Portugal e 70% na Finlândia, país com percentual mais alto, junto com a Áustria.
"Os dados mostram que quem tem formação profissional tem emprego e melhores salários. Há uma janela de oportunidade neste sentido", diz André Portela, economista da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV).
Para ele, o problema da produtividade do trabalho envolve três aspectos que precisam ser resolvidos simultaneamente no país: a produtividade do trabalhador, a do local de trabalho e a do "casamento" local-trabalhador.
Na produtividade do trabalhador, o problema seria a falta de formação, na do local de trabalho, as ferramentas à disposição, grosso modo de má qualidade. O terceiro problema citado por ele mostra que seria necessário casar oferta e demanda por educação.
"Erramos muito nesse casamento", diz. "É preciso melhorar a formação do trabalho, incorporar tecnologia às empresas, melhorar a integração entre os dois. Precisamos fazer política de geração de emprego, mas de bons empregos", afirma.
Como exemplo de "mau casamento" ele cita um estudo que mostrou que poucos egressos da educação profissional em Santa Catarina permanecem em profissões associadas ao curso, dois ou três anos depois de formados.
"Acontece o mesmo na universidade", diz. O "incentivo" à rotatividade, como o FGTS, seria uma das causas, diz. A formação de profissionais para postos que o mercado não demanda seria outra. "Mais da metade dos trabalhadores troca de emprego a cada seis meses", afirma, citando um estudo do Dieese.
Segundo Lucchesi, as empresas brasileiras gastam em média dois anos para requalificar um engenheiro e adequá-lo ao mercado depois que ele sai da universidade. "Este é o tamanho do nosso problema". Ele também defende o aumento da oferta de cursos de formação profissional dentro e fora do ensino médio. "Mais de 80% dos jovens não vão para a universidade. Prepará-los para o trabalho é ganhar produtividade", considera.
Fonte: Valor, por Ana Conceição - de São Paulo, 01/04/2019

