Os pequenos negócios representam 95% das companhias brasileiras e são responsáveis por 27% do Produto Interno Bruto (PIB). Esse conjunto expressivo de empresas, muitas vezes mais vulneráveis e com administração familiar, busca fôlego para enfrentar mais um ano de crise no país. "A perspectiva é de um cenário ainda ruim para os pequenos negócios, mas tende a ser melhor que 2015", prevê Guilherme Afif Domingos, presidente do Serviço Brasileiro de apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Cautela, diz, é a palavra de ordem para este ano. Não à toa: com a inflação elevada, os consumidores têm pisado no freio, o que reflete diretamente no volume de vendas. A receita das micro e pequenas, em termos reais,
despencou 14,3% entre 2014 e 2015, para R$ 597,2 bilhões.
"Temos muita tempestade ainda pela frente em 2016", aponta Luiz Rabi, economista da Serasa Experian. O recorde de pedidos de falências e recuperação judicial, liderado pelos micro e pequenos negócios, atesta os ventos desfavoráveis. O número de
recuperações judiciais requeridas nos dois primeiros meses deste ano mais que dobrou em relação ao mesmo período de 2015, egundo indicador da Serasa. Do total de 251 pedidos, 150 foram feitos por micro e pequenos empresários. No ano passado, os negócios de pequeno porte representaram 90% dos pedidos de recuperação judicial, conforme dados da Boa Vista SCPC.
"As micro e pequenas empresas acabam sofrendo mais porque, num ambiente de redução de consumo, a capacidade de honrar os compromissos acaba sendo menor", analisa Flávio Calife, economista da Boa Vista. "Como são também fornecedoras de grandes empresas e participam de cadeias produtivas longas, as pequenas companhias se ressentem da conjuntura, que é desfavorável para o empresariado como um todo", pontua Flávio Castelo Branco, gerenteexecutivo de política econômica da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Também reflexo da crise é a dificuldade enfrentada pelo pequeno empresário ao tomar empréstimo. As instituições financeiras estão mais seletivas e criteriosas. Em parceria com o Ministério da Fazenda, o Sebrae tem trabalhado para liberar mais recursos dos depósitos compulsórios e do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). "A ideia é ampliar o microcrédito orientado para empresas com faturamento até R$ 360 mil, em vez dos atuais R$ 120 mil", destaca Afif. A modalidade tem taxas melhores para o tomador e os bancos podem direcionar até 2% do compulsório. "Com os juros altos, só busca crédito quem está com a corda no pescoço, para segurar as pontas. As empresas que conseguirem passar o ano sem precisar de crédito estarão
sujeitas a menos risco", diz Fernando Sampaio, diretor da LCA Consultores.
Mesmo uma das características mais importantes dos pequenos negócios, a criação de empregos tem dado sinais de desaceleração. Embora as empresas tenham gerado, entre 2011 e 2015, 4,7 milhões de postos de trabalho enquanto as médias e grandes extinguiram 1,4 milhões de empregos , no ano passado o saldo foi negativo pela primeira vez, de 227,1 mil contra um saldo positivo de 775,7 mil em 2014, quando a geração de empregos deixou de ultrapassar a marca de 1 milhão. "Os pequenos negócios não irão gerar o mesmo saldo de empregos que vinham gerando nos últimos anos, mas há expectativa de retomar o saldo positivo", diz o presidente do Sebrae. Em janeiro, pontua Afif, ao passo que as médias e grandes empresas demitiram mais de 111 mil pessoas, as micro e pequenas contrataram 11,6 mil.
Para conseguir enfrentar a turbulência, a tradicional tática de enxugar despesas precisa fazer parte do dia a dia do pequeno empresário. Mas a estratégia, por si só, não basta. "O ano é de ajuste e reinvenção", sinaliza Gustavo Marques, gerente da unidade de acesso a mercados e serviços financeiros do SebraeSP. Adaptação que inclui medidas como mudar formatos dos produtos para garantir que os clientes continuem comprando, afinal o hábito de consumo mudou em meio à crise. "O consumidor brasileiro vêm trocando serviços, produtos e marcas mais caros por mais baratos", diz Afif.
Redobrar o cuidado com o fluxo de caixa e renegociar contratos com fornecedores também podem ajudar a arrumar a casa. Tratase de um cenário de voltar a ser uma pequena empresa em sua essência. "Isso significa manter o foco no cliente, controlar a inadimplência e ser atencioso com o dinheiro que sai. Não é época de apostar em novos produtos", reflete Marques. A flexibilidade costuma ajudar os pequenos. "As empresas de micro e pequeno porte conseguem alterar produtos e estratégias mais rapidamente que as grandes companhias", afirma Éverton Correia, superintendente da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL). Enquanto a conjuntura doméstica, influenciada pela instabilidade política, não dá sinais de melhora, o melhor a se fazer é buscar oportunidades.
"A vantagem é que os pequenos negócios são mais ágeis, criam e inovam mais facilmente", destaca Marco Reis, diretor titular adjunto do departamento de micro, pequena e média indústria da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). É hora de o empresário ser mais ativo.
Fonte: APeMEC, 31/03/2016

