O ministro da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações, Gilberto Kassab, disse ontem ser contra privatizar os Correios, mas afirmou que o governo não dispõe de recursos para injetar na empresa.
"Todo esforço deve ser feito para evitar privatização dos Correios ou de parte dele, mas já disse (...) que não há saída. O governo não tem recursos. Não haverá injeção de recursos nos Correios. Isso é uma decisão de governo", disse Kassab. "Ou vamos cortar gastos, fazer cortes radicais, (...) ou vamos rumar para a privatização", disse o ministro.
De acordo com o ministro, o governo busca receitas em serviços adicionais da empresa e admite que parte da crise a envolve é reflexo de má gestão, inclusive com casos de corrupção e ingerência política.
As declarações de Kassab foram feitas ontem no Palácio do Planalto, após cerimônia para sanção da Lei de Revisão do Marco Regulatório da Radiodifusão, com a presença do presidente Michel Temer. Ao falar explicitamente sobre a possibilidade de privatização dos Correios, Kassab não ecoa nenhum debate interno sobre a venda da mais antiga estatal brasileira, que completou 354 anos. Ele quis, segundo interlocutores próximos, dar um "chacoalhão" nos sindicatos trabalhistas, que resistem à nova política da empresa.
Ações duras e antipáticas estão a caminho. Nenhuma desperta tanta fúria dos trabalhadores como as "demissões motivadas", que atropelam a estabilidade dos concursados, em uma tentativa de diminuir a folha de pessoal. A adesão ao programa de desligamentos voluntários ficou aquém do esperado. O plano de assistência médica dos empregados está na UTI. Não houve interessados na licitação aberta para o Banco Postal. Empresas privadas disputam o ramo de encomendas expressas e deixam os Correios para trás.
A situação dos Correios é dramática. Houve prejuízo acumulado de R$ 4 bilhões em 2015 e 2016; o rombo chega a quase R$ 500 milhões só nos dois primeiros meses deste ano. Trabalhadores da ativa e aposentados precisam pagar contribuições extras ao fundo de pensão Postalis até 2039. Ainda assim, os sindicatos mostram-se irredutíveis. No ano passado, deixaram claro o risco de greve, se houvesse perdas salariais.
Parte do governo integrantes da equipe econômica, Casa Civil, Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) já se manifestou em reuniões internas a favor da privatização. O presidente Temer vetou. O Ministério do Planejamento chegou a estudar a hipótese de fatiar a empresa e buscar sócios privados para novas subsidiárias Kassab não pensa em introduzir discussões sobre a venda da estatal, mas "colocar o bode na sala". Estuda-se um corte inédito nos quadros da empresa. Fala-se em 20 mil a 25 mil demissões.
O ministro falou em privatização na mesma semana em que o presidente dos Correios e seu correligionário, o ex-deputado federal Guilherme Campos (PSDSP), fará reuniões com sindicalistas. São quatro dezenas de federações, associações e sindicatos estaduais.
Kassab também falou ontem do desligamento do sinal analógico de TV em São Paulo, previsto para hoje. "Vamos ter um avanço significativo na qualidade da comunicação, no serviço de comunicação em qualquer canto, em qualquer lugar da cidade e da região metropolitana de São Paulo", disse. "Isso é um grande avanço".
Fonte: Valor - Empresas, por Bruno Peres, Marcelo Ribeiro e Daniel Rittne, 29/03/2017

