Preocupações latentes sobre o combate à pandemia da covid-19 no Brasil e seus possíveis efeitos fiscais dominaram a negociação dos ativos locais no pregão de ontem, mesmo diante da ofensiva do governo federal para mostrar maior coordenação e empenho contra a crise. Sem suporte do exterior ou do Banco Central, que havia se mostrado mais presente nas semanas anteriores por meio de intervenções, o dólar registrou seu maior avanço diário em seis meses, ao passo que o Ibovespa perdeu os 113 mil pontos e a curva de juros voltou a ganhar inclinação.

No fim, pressionada ainda por preocupações de que a Argentina possa dar um calote no FMI, a moeda americana encerrou em R$ 5,6386, alta de 2,25% - a maior desde 19 de setembro. Já o Ibovespa caiu 1,06%, aos 112.064 pontos, na mínima do dia.

Um ano depois do início da crise, o presidente Jair Bolsonaro anunciou ontem a criação de um comitê para coordenar esforços no combate à pandemia. Entre outras ações, o grupo - que deve contar com participantes dos três poderes - irá discutir estratégias para o avanço da vacinação, tratada como prioridade.

A criação do comitê ocorre após o presidente assumir um tom mais moderado. Como apurou o Valor, o discurso de Bolsonaro em cadeia nacional na terça-feira foi praticamente inteiro redigido pelo ministro das Comunicações, Fabio Faria, com o intuito de se afastar da imagem de negacionista e antivacina.

“O discurso de Bolsonaro não gerou reação positiva porque todos sabem que aquilo ali não é ele. Falou o que precisava para se segurar na cadeira”, diz Fernando Bergallo, diretor da FB Capital. “A verdade é que o investidor internacional está com zero paciência com o Brasil”, disse.

“Bolsonaro está começando a correr atrás do prejuízo, uma mudança que ocorre depois da volta do ex-presidente Lula ao cenário eleitoral e também por causa piora da percepção do governo nas pesquisas”, diz Fernanda Consorte, estrategista-chefe de câmbio do Ourinvest. “Acontece que o estilo dele é muito difícil de mudar e, por mais que os assessores tentem, o discurso soa falso.”

Ontem, ao anunciar a criação do comitê, Bolsonaro voltou a defender o chamado “tratamento precoce” contra a covid e anunciou que a orientação caberá ao recém-empossado ministro da Saúde, Marcelo Queiroga. Após a fala, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), disse a interlocutores que o comitê irá basear suas decisões na ciência e nas decisões da comunidade científica.

Para Bergallo, o mercado de câmbio tem andado um pouco de lado nos últimos dias porque os agentes entendem que estamos em um cenário binário. “Ou a velocidade da vacinação melhora e as reformas também começam a acontecer e o câmbio despenca, ou o dólar vai voltar a subir com força”, explica. Em sua avaliação, o ciclo de altas da Selic iniciado na semana passada pelo Copom é o único fator que segura, no momento, um salto da moeda americana.

Diante da escalada de mortes e de temores sobre o ritmo de vacinação, há quem tema que o governo acabe fazendo gastos ainda maiores para socorrer a população. Esse risco se materializou, ontem, em uma carta assinada por 16 governadores pedindo aos presidentes da Câmara e do Senado que o auxílio emergencial volte a ser de R$ 600 e que os critérios de acesso sejam os mesmos do ano passado.

No mercado de juros, o rendimento do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 encerrou a sessão regular em 8,65%, de 8,43% no ajuste anterior. Diante da notícia da carta dos governadores, as taxas continuaram a subir na sessão estendida.

Em meio a esse cenário, houve continuidade do fechamento de posição de estrangeiros nos juros. De acordo com os dados abertos da B3, investidores não-residentes reduziram a posição líquida vendida (aposta na queda) no mercado futuro de juro de 3,7 milhões de contratos na quinta passada para 3,35 milhões ontem. “O mercado foi bem difícil”, diz um operador de renda fixa de uma corretora local que prefere não ser identificado. “Os gringos continuam ‘stopando’ e o cenário interno ficou bem ruim.”

Na bolsa, essa preocupação acabou zerando os ganhos que a Petrobras sustentou durante toda a sessão e pesou sobre o setor de bancos - que carregam bastante peso no Ibovespa. O papel Vale ON terminou em alta de 2,30%. No setor bancário, Bradesco ON caiu 1,57%, Bradesco PN cedeu 1,03% e Itaú PN recuou 1,74%.

Entre os destaques positivos, as ações de Carrefour dispararam 12,77% após a empresa anunciar a compra do Grupo Big Brasil por R$ 7,5 bilhões. Ao mesmo tempo, os papéis das concorrentes terminaram em baixa sob pressão do ambiente macroeconômico: Pão de Açúcar ON perdeu de 4,31% e Assaí ON caiu 3,22%. Fora do Ibovespa, Grupo Mateus ON cedeu 2,80%.


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Marcelo Osakabe, Felipe Saturnino, Lucas Hirata e Olívia Bulla — De São Paulo, 25/03/2021