Intensificar a agenda de lançamentos de produtos de Previdência que possam rentabilizar melhor o investidor. Esta é a aposta do setor para 2021, que irá priorizar ativos da cesta multimercados, fundos que investem exclusivamente em empresas que adotam práticas de compensação ambiental, social e de governança (ESG, na sigla em inglês) e com maior exposição no exterior. O objetivo é ampliar o leque de ofertas e acelerar a migração, que já vem ocorrendo, para ativos de maior exposição a risco, em uma indústria em que 80% dos planos ainda estão concentrados na renda fixa.
O quadro já mudou. Há quatro anos, os fundos multimercados, que diversificam diferentes classes de ativos, representavam 6% do total da carteira de previdência. Hoje são 15%. Com o CDI a 2,75% ao ano - mesmo com possibilidade de chegar a 4% em dezembro como previsto pelo mercado - está cada vez mais difícil ter ganhos reais em fundos muito conservadores ou sem nenhum tipo de alavancagem, pois a inflação está em alta.
“Este ano, vamos lançar mais de 20 produtos na pegada multimercado, renda variável e off shore. Fundos aqui que investem em ativos fora do país. Em 2020, lançamos 21 fundos com essas estratégias, que buscam melhor risco retorno, e deu muito certo”, afirma Claudio Sanches, diretor de investimentos e de previdência do Itaú Unibanco, que registrou no ano passado, migração de R$ 15 bilhões da renda fixa para fundos multimercados em sua carteira de previdência, que conta com R$ 215 bilhões. “E isso vai continuar. Com a taxa de juros baixíssima, mesmo com perspectiva de subir um pouco, recomendamos multimercado e renda variável com gestão ativa”, observa Sanches.
O Bradesco Vida e Previdência, que ainda concentra 88% do total de sua reserva de R$ 152 bilhões em renda fixa, estimula que além das migrações internas, o dinheiro novo que entra na Previdência já venha com estratégias de risco e de retorno ajustados. “Em 2020, atingimos um número emblemático de mais de R$ 5 bilhões de captação líquida em fundos multimercados. Nunca tivemos captação tão forte nesta classe de ativos. Deste total, R$ 2 bilhões foi resultado de migração interna da renda fixa”, diz Vinícius Marinho da Cruz, diretor financeiro da instituição. Entre os fundos que já lançou e os que pretende lançar este ano, nove são multimercados, dois de ações e um de renda fixa. O executivo explica que parte da carteira recomendada da seguradora ainda mantém parcela em renda fixa, caso o investidor precise de liquidez. Mas salienta que começam a surgir abordagens novas, como os fundos ESG, que têm histórico de alta rentabilidade. “Os produtos ESG de previdência estão sendo lançados em março em parceria com terceiros e têm tíquete de entrada a partir de R$ 50. Os outros lançamentos carregam Bolsa local e internacional, além de multimercados de diferentes tipos de risco”, afirma.
O Safra, que diz ter sido a primeira casa a montar um fundo multiestratégia em Previdência, defende que o mais importante é entregar retorno com gestão de risco e diligência. O banco, que tem R$ 20 bilhões nesta carteira, quer trazer mais produtos para sua grade e irá lançar um fundo ESG em Previdência ainda no primeiro semestre. “Acredito que fundos de previdência quantitativos, que trabalham com algorítimos, com análise de dados e ativos internacionais vão crescer”, observa Mauricio Hazzan, diretor de investimentos do Safra Private Banking. A pegada ESG começou em 2020 com o lançamento de um fundo multimercado - não em Previdência - que rendeu, segundo Hazzan, 1.693% do CDI em seis meses encerrados em 17 de março. Mas o executivo ressalta que, apesar do foco ser na diversificação de maior risco, há alternativas de investimentos na renda fixa. “A renda fixa nunca acaba. E vai voltar a ter mais atratividade agora com o ciclo de alta de juros. As NTN-Bs que datam em 2050, 2055, estão pagando IPCA + 4,28% [ao ano] e ficaram mais atrativas”, diz Hazzan.
A SulAmérica também enxerga oportunidades na renda fixa e pretende lançar em média dois produtos por mês este ano para elevar a diversificação de sua grade. “Vai ter de tudo. De renda fixa em crédito privado a multimercados long biased, fundos com alocação no exterior, fundos setoriais de saúde e fundos de previdência genuinamente ESG”, conta Marcelo Mello, vice-presidente de investimentos, vida e previdência da SulAmérica, que registrou crescimento de 17% no total de reservas em 2020 ante 2019, para R$ 9,2 bilhões. O executivo alerta, no entanto, para a alta volatilidade esperada para o segundo semestre de 2021, com o início da corrida eleitoral de 2022. “Aliado a isso, se a Selic continuar aumentando em 2022, pode diminuir um pouco o apetite do investidor pela diversificação”, observa Mello.
Fonte: Valor Econômico - Suplementos, por Roseli Loturco — De São Paulo, 25/03/2021

