A economia brasileira está próxima de um “choque patrimonial” no orçamento das famílias, num cenário marcado pela piora da pandemia da covid-19 e de lento avanço da vacinação, apontam os economistas do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV). Há uma combinação de fragilidade da renda do trabalho, inflação alta e um auxílio emergencial menor, destaca o instituto, com o agravante de que os juros começaram a subir. Isso adiciona incerteza sobre a recuperação do consumo. Na visão do Ibre/FGV, o país caminha para um “abismo de renda”. No meio do ano, o IPCA poderá bater em 8% no acumulado em 12 meses, um número muito acima da meta de 2021, de 3,75%.
A massa real ampliada de rendimentos dos trabalhadores deverá cair 7% em 2021, depois de subir 3,4% no ano passado com ajuda das transferências governamentais, sem as quais o indicador teria mostrado retração de 5,7%, calcula o Ibre/FGV. Os números já descontam a inflação.
No fim de 2020, as famílias já se encontravam com pouco fôlego financeiro, com índice de endividamento de 56,4% em relação à renda dos últimos 12 meses, o maior percentual já registrado, segundo dados do Banco Central.
“As pessoas nunca estiveram tão endividadas e nunca comprometeram tanto da sua renda. Um eventual ciclo de consumo futuro concorre com as famílias numa situação de corda no pescoço”, resume Lívio Ribeiro, pesquisador do Ibre/FGV. A esperada melhora das condições sanitárias no segundo semestre não elimina a dificuldade de retomada. “O governo fez um pacote de ações para evitar o buraco, mas uma recuperação forte da atividade via mercado de trabalho parece difícil mesmo num cenário em que tudo dê certo”, diz ele.
“Há muita incerteza sobre a duração e a intensidade da segunda onda da covid e as cicatrizes que ficarão nas empresas e famílias. Esse primeiro semestre é muito desafiador”, afirma Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Ibre/FGV.
Fonte: Valor Econômico - Impresso, por Hugo Passarelli — De São Paulo, 22/03/2021

