Apesar de os últimos números da economia terem levantado dúvidas sobre o ritmo da retomada do crescimento, a área econômica ainda sustenta seu cenário de uma expansão em torno de 3% neste ano. Parte do governo reconhece que nos primeiros meses do ano o ritmo está um pouco abaixo do que se previa, mas reafirma a visão de que a tendência de aceleração da atividade é clara, por conta não só de impulsos fiscais e monetários em curso, mas também por fatores como a alta na confiança de consumidores e empresários, indicando continuidade na elevação dos investimentos.

Desde que o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do quarto trimestre ficou abaixo do previsto pelo mercado, preocupações sobre o real estado da economia começaram a ser levantadas. Os dados negativos da indústria e dos serviços em janeiro, o IBC-Br (que procura antecipar o PIB) do mesmo mês e a inflação persistentemente abaixo do piso da meta reforçaram tais questionamentos.

Uma fonte oficial, contudo, pondera que os números específicos de janeiro, além da volatilidade natural dos dados mensais, refletem na verdade a devolução de um resultado mais forte do que o esperado em dezembro. Embora para o PIB do quarto trimestre o forte desempenho do último mês do ano estatisticamente tenha tido pouco impacto, o resultado legou um carregamento estatístico para este início de 2018 que, mesmo com algumas decepções em janeiro, permite projetar uma alta de 0,6% para o PIB do primeiro trimestre.

Ou seja, se os cálculos dos técnicos do governo estiverem corretos, os primeiros três meses do ano devem apontar um ritmo de crescimento próximo de 2,5% para o PIB.

A mesma fonte acrescenta que o resultado da atividade econômica no quarto trimestre de 2017 de fato foi inferior ao que o próprio governo esperava. O motivo para isso, avalia, seria o fato de que as políticas monetária e fiscal ainda tiveram efeito de contração na atividade. Vale lembrar que a meta de resultado primário mostrou déficit bem menor do que se esperava no ano e que a política monetária tem efeitos defasados e refletia os cortes de juros do início de 2017.

O economista afirma, ainda, que esse quadro de políticas fiscal e monetária está sendo revertido para 2018, favorecendo aceleração mais intensa da atividade econômica ao longo dos próximos trimestres e sustentando a manutenção dos 3% previstos para o ano.

Outra fonte oficial ressalta que, no quarto trimestre, apesar do número agregado não ser empolgante, os números da demanda interna - o mais importante termômetro para a sensação de bem-estar da população - apontaram um ritmo de 0,43%, o que tende a se acelerar em 2018, oscilando entre 0,7% e 0,8% por trimestre.

Essa mesma fonte salienta os aspectos de sazonalidade e estatística para justificar os resultados fracos da indústria e dos serviços em janeiro. E sugere que se observem dados como as médias móveis trimestrais. No caso do setor industrial, por exemplo, a leitura é que, por essa métrica, há na verdade aceleração ante dezembro.

Entre os indicadores econômicos coincidentes, dados como nível de estoques, uso de capacidade instalada, venda de papelão ondulado, entre outros, referendam o cenário de que não há um soluço ou perda de vigor na economia. "Não há nenhum dado que justifique a reversão do cenário do governo", disse.

Sobre a inflação abaixo da meta, que alguns analistas interpretam como sintoma de letargia econômica, as fontes oficiais apontam diferentes motivos e nenhum deles seria o nível de atividade. Cita-se a queda no ritmo dos preços administrados em comparação com 2017 e os ainda comportados preços de alimentos como determinantes. Aponta-se, também, a ainda elevada ociosidade da economia, em torno de 4% do PIB, que não justificaria a expectativa de aceleração inflacionária neste momento.

Um técnico oficial fez, inclusive, uma provocação destacando que, com a proximidade do Copom, parte do mercado que está pré-fixado, e torce pela queda de juro, estaria fazendo jogo para apontar a perda de vigor da economia e aumentar a probabilidade de continuidade dos cortes da Selic.


Fonte: Valor - Macroeconomia, por Fabio Graner, 21/03/2018