Há um mês, o juro real sofreu uma inversão. Retornou ao patamar de 2% e vem buscando 2,4% nos últimos dias. É um avanço e tanto se comparada à cotação mínima de 1,39% alcançada no início de dezembro do ano passado, mas baixíssima se comparada aos 7% que a presidente Dilma Rousseff encontrou quando chegou ao Palácio do Planalto, no início de 2011. O juro real, calibrado pela diferença entre a projeção de inflação para 12 meses captada pelo boletim Focus e a taxa de contratos de swap prefixado de 360 dias, decolou com as primeiras manifestações de desconforto do Banco Central com a inflação que puxaram os juros nominais.

A alta dos juros, flagrante no mercado futuro da BM&FBovespa, foi atenuada com a divulgação da ata do Copom, em que o BC indicou aperto monetário mais brando. Mas os juros futuros seguem elevados para os padrões estabelecidos no governo Dilma e, por ora, as baixas observadas nos últimos dias ainda não garantem uma tendência. Podem ser atribuídas também à maior volatilidade dos ativos financeiros. 

Mas se, independente da volatilidade no curto prazo, o juro real permanecer ao redor de 2% em doze meses nos próximos dois a três anos, avalia um analista, o setor real da economia terá um benefício relevante em custo de financiamento. “O impacto é muito bom, mesmo que a inflação continue persistente em torno de 5,5% ao ano”, pondera nosso interlocutor que considera mais relevante o perfil das medidas que vêm sendo tomadas no governo Dilma. “A concessão de portos e aeroportos, por exemplo, são medidas estruturais com efeitos importantes. E não devem ser vistos como medidas de governo, mas de Estado. Diante de medidas desse porte, as demais tornam-se paliativos para compensar o esgotamento de modelos de crescimento que o país experimentou até agora”, completa a fonte.

Com foco no curto prazo, o mercado financeiro não despreza informações sombrias para o cenário de inflação: a desoneração da cesta básica ainda não está fazendo cócegas nos índices de preços ao consumidor na opinião de especialistas e a perspectiva para o custo da energia elétrica já não é tão positiva. As termelétricas ficarão ligadas por mais tempo que o previsto, ante a revisão para baixo na previsão do nível dos reservatórios das hidrelétricas pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). A segunda prévia de março do IGP-M, medido pela Fundação Getúlio Vargas, mostrou que a tarifa de energia elétrica residencial acelerou. Parte da deflação observada em fevereiro sumiu.

Analistas e operadores de renda fixa começaram a ser surpreendidos com a dispersão das projeções para a inflação, apesar da determinação do governo de tomar medidas e sustentar o discurso de que os preços estão sob controle. “Inflação alta é ruim, mas não ter referência para o índice ou ter múltiplas referências é um problemão”, afirma um especialista em renda fixa que destaca o fato de, na dúvida a respeito da proteção (contra a inflação) a ser feita em taxas de retorno de aplicações financeiras, os investidores passaram a exigir prêmios crescentes.

“O resultado desse processo já conhecemos. O Brasil chamará mais recursos especulativos que não colaboram em nada para os investimentos que o país precisa. Mas é inevitável porque o mundo continua remunerando muito mal o capital e o Brasil, embora tenha mudado, continua remunerando bem demais o capital”, diz um gestor de recursos de investidores estrangeiros.


Fonte: Valor, 20/03/2013