Em duas entrevistas separadas ao ValorMario Torós, ex-diretor do Banco Central que participou da reação do Brasil à crise financeira de 2008, e Affonso Celso Pastore, ex-presidente do BC na crise da dívida dos anos 1980, expõem a divisão que ocorreu entre os economistas nas últimas semanas sobre como o Comitê de Política Monetária (Copom) deveria reagir num ambiente de alta da inflação, com ameaça de estourar o teto da meta deste ano, ao mesmo tempo em que a economia poderá entrar numa recessão técnica devido à nova onda da pandemia e também com as incertezas na política fiscal.

Torós considera que o Copom agiu bem em subir os juros em 75 pontos-base em reunião anteontem, para 2,75% ao ano, porque assim pode segurar as expectativas de inflação e colher um ciclo de aperto monetário menor. “O Banco Central adotou uma postura diferente, nesse sentido, eu tenho que aplaudir", afirma.

Pastore fez os seus cálculos sobre como apertar os juros de forma a minimizar as perdas para a economia em termos de atividade econômica e inflação - e concluiu que as contas não fecham com um movimento tão forte. “Preferiria uma subida mais gradual, eu acho que uma subida de 50 pontos faria perfeitamente o trabalho que tem que fazer.”

Nenhum dos dois discorda de que era preciso começar a subir os juros, já que a taxa básica estava, em termos reais, no terreno bem negativo. A controvérsia é sobre o ritmo de elevação.

Pastore diz que quer ver com detalhes a comunicação do Copom, incluindo a ata e o relatório de inflação, mas levanta a hipótese de que o BC tenha sido mais duro para conter a inflação pela taxa de câmbio. “Eu discordo dessa visão. Hoje em dia o Brasil é um país de risco fiscal muito alto relativamente aos emergentes”, diz. “Tivemos um anúncio de mais 150 pontos-base [de alta de juros], e hoje [ontem] eu não vi uma valorização do real que, no fundo, fosse indicativo de que temos uma grande capacidade de atrair capitais”, afirma, somando a alta desta semana e a promessa do BC de aperto de mais 75 pontos-base na reunião de maio.

Torós diz que o Brasil não está sozinho no ciclo de aperto - ontem mesmo o BC da Turquia subiu a taxa de 17% para 19% ao ano, e espera-se um endurecimento na linguagem da autoridade monetária russa. Para ele, em tese o BC não deveria subir os juros para combater um choque de oferta. Mas a combinação da alta de preços de commodities com desvalorização cambial exigiu ação forte para evitar perder o controle das expectativas.


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Alex Ribeiro — De São Paulo, 19/03/2021