Mais um salto do IGP-M, desta vez na segunda quadrissemana de março – a 1,41% em comparação a 0,24% em igual período de fevereiro divulgada há pouco pela Fundação Getulio Vargas --, não surpreende, uma vez que até o presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, reconhece que o país atravessa um choque nos preços de alimentos e deu essa declaração ontem no Senado. Até aqui, tudo certo. Mas neste cenário de vigorosa pressão inflacionária – com um choque pesando sobre indicadores já elevados e resistentes há muito tempo --, o BC ainda poderá ser surpreendido e o mercado financeiro também. No limite, tanta surpresa pode respingar na presidente Dilma Rousseff -- candidata favorita à reeleição em outubro, segundo as pesquisas mais recentes de opinião.
O BC dá como certa a reversão dos preços porque caracterizam um choque. Ora, nesse diagnóstico há pouco a fazer, calculam técnicos do governo. O mercado, desconfiado por natureza, dificilmente contará com preces, mandinga ou sorte. Pragmático, pelo sim, pelo não, começará a embutir prêmios nas taxas de juros para proteger ganhos de uma inflação imprecisa, mas certamente alta, que o futuro reserva.
Se for construída essa visão antagônica entre o BC e o mercado financeiro a respeito do processo inflacionário e se brotar uma rixa entre as partes quanto à duração -- breve ou prolongada -- do processo inflacionário mais pesado, os ativos brasileiros podem sofrer um arriscado e perturbador desalinhamento.
O desalinhamento pode ser arriscado porque nem sempre há simetria de informação entre todas as instituições e investidores que atuam no mercado financeiro, de modo a garantir que todos tenham conhecimento simultâneo dos momentos em que, por exemplo, o desalinhamento dos ativos diminui a ponto de viabilizar mudança ou liquidação de posições com a menor perda financeira possível.
O desalinhamento pode ser perturbador, dependendo sobretudo de sua duração. Em breve estaremos no segundo trimestre de 2014, estreando o calendário da Copa do Mundo que estará praticamente colado às eleições. O país estará sob a influência de eventos tão incomuns que não será nada simples interpretar quais reações têm a ver com as novidades que o Brasil apresenta a visitantes ou visitantes para o brasileiros e quais reações de mercado serão resultado de manifestações de candidatos à Presidência da República.
E, pior, as reações difusas à campanha eleitoral ocorrerão possivelmente nos momentos em que as manifestações vindas do mercado financeiro – sobretudo do comportamento dos ativos financeiros -- serão elementos vitais para montar cenários econômicos alternativos para o Brasil a partir de 2015, o que interessa, e muito, ao favorito no pleito que, por ora, é Dilma Rousseff.
Em tempo: o choque de preços chega com a inflação em 12 meses girando em torno de 5,5% a 6%, relata Cristiano Romero, editor-executivo do Valor, em sua coluna publicada na edição desta quarta-feira. No regime de metas, lembra o jornalista, o largo intervalo de tolerância – dois pontos para cima ou para baixo da meta – serve para absorver choques e, assim, evitar que o Copom eleve os juros em demasia. A questão é que, estando o IPCA próximo do limite superior de tolerância (6,5%), um choque agora tende a jogá-lo acima do teto da meta. Portanto, o risco que o país corre é ver a inflação estourar o teto entre junho e setembro e não voltar mais.
Fonte: Valor, 19/03/2014

