O Banco Central deu a largada com força na retirada dos estímulos monetários injetados durante a pandemia, com uma alta de 0,75 ponto percentual na meta da taxa Selic, para 2,75% ao ano. Mas procurou segurar as expectativas do mercado financeiro por mais juros, limitando por ora o ciclo total de aperto a 4,5% ao ano até o fim do ano.
Na sua primeira reunião desde que ganhou a independência formal em lei aprovada pelo Congresso, a autoridade monetária deixou de fora das justificativas de sua decisão o acirramento dos riscos fiscal e político ocorrido nas últimas semanas.
O BC fez uma indicação clara de que pretende subir os juros em 0,75 ponto percentual também na sua próxima reunião, em maio. Mas, num ambiente de muita incerteza, deixou portas abertas para desistir, alertando que pode mudar de ideia caso ocorra “uma mudança significativa nas projeções de inflação ou balanço de riscos”.
O Banco Central procurou segurar a sede de setores do mercado por mais juros. Disse que está fazendo um processo de “normalização parcial” da taxa de juros. Em janeiro, a autoridade monetária já havia explicado que isso significa retirar os estímulos extraordinários injetados durante a pandemia, quando baixou a taxa básica de 4,25% ao ano para a mínima histórica de 2% ao ano. Ou seja, quer levar a taxa a 4,25%.
Outro freio são as projeções de inflação. O BC diz que, se os juros subirem conforme esperado pelo mercado, para 4,5% ao fim deste ano, seria suficiente para colocar a inflação na meta em 2022, de 3,5%, apesar do repique esperado a 5% em 2021. Ou seja, uma alta a 4,5% faria o serviço.
O risco é desagradar os dois grupos. Ontem, alguns menos conservadores já questionavam o BC agir mais acelerado para reduzir o risco de estourar o teto da meta deste ano, já que a política monetária atua com defasagens e atinge pouco uma inflação nove meses adiante. Já o grupo mais conservador de operadores do mercado defende uma normalização plena da taxa de juros, levando-a a 6% ao ano, que muitos acham que é o nível neutro e não estimula a economia.
Não é a primeira vez que o Banco Central inicia um ciclo com força com a justificativa de antecipar um ciclo restrito. Em 2013, na gestão Alexandre Tombini, a autoridade monetária indicou que o ciclo seria menor do que os anteriores, porque os juros tinham caído estruturalmente. O mercado leu como um sinal de fraqueza do BC. No fim, acabou levando a taxa de 7,25% para 14,25% ao ano.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Alex Ribeiro — De São Paulo, 18/03/2021

