
O Comitê de Política Monetária (Copom) elevou a taxa Selic em 0,75 ponto percentual, para 2,75% ao ano. O colegiado do Banco Central (BC) também afirmou que, a não ser que ocorram mudanças significativas, “antevê” outra alta “da mesma magnitude” no próximo encontro.
“Para a próxima reunião, a menos de uma mudança significativa nas projeções de inflação ou no balanço de riscos, o Comitê antevê a continuação do processo de normalização parcial do estímulo monetário com outro ajuste da mesma magnitude”, disse em comunicado divulgado ontem após a decisão, tomada de maneira unânime. Essa nova alta de 0,75 ponto, no entanto, “continuará dependendo da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos, e das projeções e expectativas de inflação”.
Na avaliação do BC, o cenário atual “já não prescreve um grau de estímulo extraordinário”. A autoridade monetária citou três fatores que justificaram a redução desse estímulo: o “crescimento forte na margem” do Produto Interno Bruto (PIB) no fim do ano passado, que recuperou “a maior parte da queda observada no primeiro semestre”; a elevação das expectativas de inflação “acima da meta no horizonte relevante de política monetária”, que inclui 2021 e, principalmente, 2022; a elevação das projeções “para níveis próximos ao limite superior da meta em 2021”. A meta para este ano é de 3,75%, com intervalo de 1,5 ponto para mais ou para menos.
Essa “estratégia de ajuste mais célere” traz dois benefícios, segundo o BC. Em primeiro lugar, reduz a chance de não cumprimento da meta de 2021. Em segundo, mantém “a ancoragem das expectativas para horizontes mais longos”.
“Além disso, o amplo conjunto de informações disponíveis para o Copom sugere que essa estratégia é compatível com o cumprimento da meta em 2022, mesmo em um cenário de aumento temporário do isolamento social”, disse.
O balanço de riscos da autoridade monetária para a inflação continua com fatores atuando nos dois sentidos, mas o “risco fiscal” segue criando uma assimetria altista: há mais chances de a trajetória de inflação ficar acima do projetado do que abaixo. Em sentido oposto, “o agravamento da pandemia pode atrasar o processo de recuperação, produzindo trajetória de inflação abaixo do esperado”.
O BC também segue considerando que os choques inflacionários atuais “são temporários”, mas reforçou que eles têm se mostrado mais fortes e persistentes do que o esperado” e que o Copom “segue atento à sua evolução”.
“A continuidade da recente elevação no preço de commodities internacionais em moeda local tem afetado a inflação corrente e causou elevação adicional das projeções para os próximos meses, especialmente através de seus efeitos sobre os preços dos combustíveis”, disse.
O cenário externo, por sua vez, pode se tornar “desafiador” para emergentes. Isso porque “questionamentos dos mercados a respeito de riscos inflacionários” nas principais economias “têm produzido uma reprecificação nos ativos financeiros”. Para o BC, novos estímulos fiscais e o avanço da vacinação “devem promover uma recuperação mais robusta da atividade” global ao longo do ano.
Sobre o ritmo de crescimento da atividade no Brasil, a visão do Copom é que ela segue com incerteza “acima da usual”, principalmente para o primeiro e segundo trimestres deste ano.
No cenário básico de inflação apresentado ontem, as projeções do BC para 2021 e 2022 estão em 5% e 3,5% - respectivamente acima da meta de 3,75% e na meta de 3,5%. Esse cenário pressupõe taxa de juros extraída da pesquisa Focus, terminando 2021 em 4,5% ao ano e 2022 em 5,5%. Já a taxa de câmbio começa em R$ 5,70, a média da semana anterior à reunião do colegiado, e evolui segundo a paridade do poder de compra.
Na reunião de janeiro, as projeções eram de 3,6% e 3,4%, respectivamente. Esse cenário contava com a Selic terminando 2021 em 3,25% ao ano e 2022 em 4,75%. Já a taxa de câmbio começava em R$ 5,35. Ou seja: principalmente no caso de 2021, a projeção se elevou na reunião de ontem.
Desta vez, o cenário básico também trouxe projeções para a inflação de preços administrados, que ficaria em 9,5% neste ano e 4,4% no ano que vem. Por sua vez, “as diversas medidas” de inflação subjacente, mais sensíveis à taxa de juros e à atividade, continuam “em níveis acima do intervalo compatível com o cumprimento da meta”.
A última elevação da Selic havia sido em julho de 2015, quando subiu de 13,75% para 14,25% ao ano. Desde o fim de 2017, vinha testando mínimas históricas.
O Copom realiza sua próxima reunião nos dias 4 e 5 de maio.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Estevão Taiar e Alex Ribeiro — De São Paulo, 18/03/2021

