A cautela antes dos investidores antes das decisões de juros do Federal Reserve e do Copom limitaram o alívio visto no câmbio no início do pregão desta terça-feira. Após abrir em queda firme, devolvendo os excessos da véspera, e tocar R$ 5,5591 na mínima intradiária, a moeda americana acabou entregando a maior parte do movimento até fechar em baixa de 0,36% nesta terça-feira, a R$ 5,6190.
Pela manhã, um dado mais fraco que o esperado das vendas no varejo dos Estados Unidos ajudou a afastar preocupações de que a economia americana pudesse estar sobreaquecendo. No entanto, a proximidade com a decisão do Fed levou os rendimentos das T-notes de 10 anos a acelerarem ganhos novamente e voltarem a tocar 1,62%, o que penalizou as divisas emergentes. No horário acima, o dólar caía 0,12% contra o peso mexicano e 0,55% frente à lira turca, mas subia 0,18% ante o rublo russo e 0,69% na comparação com o peso chileno.
“Estamos em modo de espera”, resumiu o diretor da WIA Investimentos, José Faria Junior, se referindo às reuniões de Fed e Copom. No caso americano, diz, um dos principais pontos de atenção será o gráfico de pontos.
Atualmente, apenas um dos membros do Fomc prevê alta de juros em 2022 e cinco em 2023. Uma elevação desses números, mesmo que não mude a mediana, pode ser entendido como um sinal ‘hawkish’ (favorável à retirada dos estímulos), alerta o profissional.
Em relação à política monetária doméstica, Junior faz coro com a parcela dos agentes que entende que uma alta de apenas 50 pontos-base arrisca ser negativo para o câmbio. “Temos um problema de inflação que só resolve com a queda do dólar”, diz. Em sua avaliação, o BC poderá, inclusive, ser obrigado a aumentar intervenções no câmbio caso esta seja a leitura dos mercados.
A discussão sobre impacto - positivo ou negativo - do início da normalização monetária sobre o real tem dominado as atenções do mercado de câmbio nos últimos dias. No entanto, restam também preocupações sobre o que a política monetária não pode alcançar. Em live realizada pelo Valor esta manhã, o economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato, ressalta que se a moeda brasileira estiver, de fato, descolada dos pares por problemas de política fiscal, o choque de juros não irá resolver. Além disso, se o BC escolher mirar o câmbio por meio de sua política monetária, ele corre o risco de acelerar o processo de dominância fiscal.
Também presente na live do Valor, a economista-chefe do Santander, Ana Paula Vescovi, afirmou que a aprovação da PEC Emergencial não afasta o risco latente de dominância fiscal, em meio a riscos de execução de medidas de controle de gastos.
Na visão da ex-secretária do Tesouro Nacional, as recentes atuações do BC no câmbio consolidam a separação de política cambial e política monetária. Essas intervenções tiveram a ver com suavização da disfuncionalidade do mercado, visando ao rompimento da inércia das expectativas de valorização adicional do dólar, afirma.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Marcelo Osakabe, Valor — São Paulo, 16/03/2021

