
Após o relativo alívio visto na semana passada, reagindo à mudança no padrão de atuação no câmbio pelo Banco Central (BC), o mercado voltou a viver ontem um dia de tensão. Participantes dos negócios notaram que parte da pressão vendedora do real ocorreu por causa de uma pressão pontual de fluxo - a distribuição de dividendos da Vale. Outro fator que influenciou foi a preocupação, às vésperas da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), com o rumo da taxa Selic.
No encerramento do dia, o dólar foi negociado a R$ 5,6391, em alta de 1,4%. O real foi a divisa de pior desempenho da sessão - o peso mexicano e a lira turca, por exemplo, fecharam o pregão em alta contra do dólar.
A necessidade de atender ao mercado parece, inclusive, ter motivado o Banco Central a mudar de instrumento - vinha leiloando swap cambial nos últimos dias - e vender US$ 1,065 bilhão no mercado à vista na tarde de ontem, diz Roberto Motta, responsável pela mesa institucional de futuros da Genial Investimentos. Motta ressalta, por outro lado, que o alívio com o leilão foi apenas momentâneo e que no fim da tarde a moeda americana voltava a se aproximar da máxima do dia, de R$ 5,6565.
Esse movimento, diz ele, ocorre em meio a uma certa preocupação com a possibilidade de que o Copom acabe soando menos favorável à retirada dos estímulos do que o esperado. Embora a precificação extraída da curva de juros futuros do DI mostrasse uma chance de aproximadamente 90% de uma alta de 0,75 ponto percentual da Selic na reunião do comitê, a maioria dos analistas espera uma alta menor, de 0,50 ponto.
Diante dessa divergência de opiniões, muitos participantes de mercado temem uma reação negativa do câmbio. “Acredito que a postura do mercado, subindo bem a parte curta da curva e com o dólar tendo essa reação, é um sinal que o mercado passa de que seria prudente começar de forma mais forte. Caso o BC não avalize esse visão, é bom ter uma explicação muito forte”, diz Motta, para quem o dólar pode alcançar facilmente os R$ 6 dependendo do resultado da reunião do Copom.
Com a possibilidade de que o Copom acabe entregando menos do que se espera, o Morgan Stanley inclusive abriu uma posição vendida (apostando na desvalorização) da moeda brasileira por meio de NDFs (contrato a termo de moeda) de três meses. “Com um prêmio de risco sobre o real perto de zero, os valuations podem não estar limpos o suficiente para dar apoio a uma recuperação da moeda brasileira, especialmente se o Copom não elevar os juros tão rápido quanto o mercado espera”, dizem os estrategistas do banco americano. “Vemos riscos para o real mais inclinados para o lado negativo, uma vez que a moeda deve se manter pressionada por uma combinação desfavorável de fatores idiossincráticos e globais.”
Na semana passada, o Banco Central ajudou a mitigar essa preocupação mudando a forma de atuação. A decisão da autoridade monetária de anunciar, de véspera, estoque novo de swap cambial também ajudou, mas esse efeito vem diminuindo junto com a “ração” que tem sido ofertada a cada vez - após começar com o equivalente a US$ 1 bilhão na quinta, o BC vendeu US$ 500 milhões ontem. Para hoje, não há, por ora, leilão programado.
“Acredito que esses volumes cada vez menores tenham deixado os participantes de mercado confortáveis em manter seu hedge em dólar”, afirma Motta.
Para o TD Securities, uma alta de 0,50 ponto da Selic pode trazer algum alívio para o câmbio. Ainda assim, dizem os economistas do banco canadense, esse alívio deve continuar limitado pela questão fiscal e política, “em especial, dada a emergência do ex-presidente Lula como potencial candidato para a eleição de 2022”.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Marcelo Osakabe — De São Paulo, 16/03/2021

