A Organização Mundial de Saúde recomenda a existência de ao menos 9 m2 de espaço verde por habitante nas cidades e cada morador deve viver a uma distância de no máximo 15 minutos a pé dessas áreas. São Paulo, como a maioria das capitais brasileiras, está longe do índice: seus 106 parques urbanos e naturais totalizam cerca de 3,5 m2 per capita, duas vezes e meia abaixo do limite mínimo preconizado para a qualidade de vida.
Apesar do déficit, de acordo com Rodrigo Ravena, chefe de gabinete da Secretaria do Verde e Meio Ambiente da capital paulista, "a estratégia não é criar novas áreas verdes, mas desonerar e melhorar a gestão das já existentes". A prefeitura gasta R$ 120 milhões por ano com manutenção, manejo e vigilância dos parques, mas "para o trabalho ser realizado como se deveria precisaríamos do dobro."
O orçamento de 2018 para o setor foi de R$ 99 milhões - valores insuficientes que já consideram a busca de novas fontes de recursos. Como solução financeira, o município iniciou o processo de concessão dos parques à iniciativa privada para exploração de serviços. A expectativa é atingir uma desoneração total de R$ 1,6 bilhão durante os 35 anos dos contratos de concessão abrangendo seis parques municipais, a começar pelo Ibirapuera, que hoje custa R$ 2 milhões mensais aos cofres públicos. O novo modelo de gestão da área está em processo de consulta pública desde o fim de fevereiro.
Os parques paulistanos recebem em média 163 mil visitantes de segunda à sexta-feira e cerca de 565 mil nos finais de semana, "fluxo que aumenta devido à verticalização e a consequente falta de áreas livres na cidade", segundo Ravena. Para ele, "a crise econômica induziu a população a optar pelo lazer gratuito, e quanto mais os parques são usados, maior é a cobrança por melhorias".
"Mais do que quantidade, as áreas verdes precisam de qualidade", ressalta Fernando Pieroni, diretor executivo do Instituto Semeia, para quem "é necessário encontrar caminhos diante do adensamento urbano e das dificuldades do poder público em gerir parques". Ele defende a parceria público-privada: "As empresas têm maior flexibilidade para inovar e investir".
De acordo com o estudo "Rethinking parks", elaborado pela fundação britânica Nesta, "é clara a urgência de estabelecer novos modelos de negócios e promover inovações radicais na forma como os parques serão sustentados no futuro, de modo contribuir para um tecido social saudável". Para isso, completa o estudo, deve-se aumentar a escala de boas práticas e construir parcerias com o setor privado, aproveitando tecnologias.
"As cidades brasileiras foram construídas no século XIX sem privilegiar o interesse público", analisa o botânico Ricardo Cardim, paisagista idealizador do projeto Floresta de Bolso, em São Paulo. Além do desequilíbrio entre o verde e o concreto, "90% da vegetação urbana não é nativa, um paradoxo diante da grande biodiversidade brasileira". Ele prevê: "Com a necessidade de adaptação às mudanças climáticas, nos próximos anos São Paulo precisará transformar em parques os grandes terrenos que restaram na malha urbana".
As áreas verdes das cidades servem ao lazer e à prática de esportes, mas também ajudam na permeabilidade do solo contra inundações e amenizam as "ilhas de calor" formadas pelas construções, o que ainda favorece a redução do consumo de eletricidade. Além disso, as árvores urbanas reduzem impactos da poluição atmosférica, responsável por doenças que até 2050 - se nada for feito para reduzi-la - deverão causar 178 mil mortes a um custo de quase R$ 54 bilhões, em São Paulo, segundo o Instituto Saúde e Sustentabilidade. No exterior, pesquisas mostram que morar a menos de 300 metros de um parque reduz o risco de morte por infarto agudo do miocárdio em 30%.
"É preciso melhorar o planejamento, considerando o risco de futuros impactos às florestas urbanas e seu entorno", recomenda Márcia Hirota, diretora executiva da Fundação SOS Mata Atlântica. Na capital paulista, a vegetação natural resiste em 30% do território, segundo levantamento do Plano Municipal da Mata Atlântica - percentual expressivo, porém concentrado nas bordas da cidade.
Além dos parques, a cidade de São Paulo abriga 61 unidades de conservação municipais com 187 mil hectares. No país, em todo o bioma da Mata Atlântica, são 964 áreas naturais desse tipo, mas menos de um quarto consta nas estatísticas nacionais. "É preciso dar visibilidade a essa rede de proteção local, até porque 38% delas foram criadas com o objetivo de proteger recursos hídricos", adverte o biólogo Luiz Paulo Pinto, autor do mapeamento.
Fonte: Valor - Macroeconomia, por Sergio Adeodato, 15/03/2018

