A intensificação do aumento da procura por trabalho no começo deste ano elevou a taxa de desemprego medida pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) de 6,5% em dezembro para 6,8% nos três meses encerrados em janeiro. A queda expressiva - e inédita - da renda média real em meados do ano passado mostrada pela pesquisa é apontada pela LCA Consultores como principal razão para esse movimento.
Em 2014, o rendimento médio real recuou por cinco trimestres seguidos - do período encerrado em julho até o completado em novembro. A retração média de 0,9% nesses cinco trimestres foi responsável pela desaceleração forte do indicador em 2014, que passou de 3,3%, em 2013, para 1,1% no ano passado.
Como a série de rendimentos da Pnad Contínua foi divulgada pela primeira vez ontem, esse movimento - contrário ao da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), em que a renda acelera de 1,7% para 2,5% no mesmo período - ainda não era conhecido.
A pesquisa mostra que se aprofundou no início de ano a tendência de retorno dos inativos ao mercado de trabalho observada desde o fim de 2014. Entre o trimestre encerrado em janeiro e igual período de 2014, 55% das pessoas que entraram no grupo de trabalhadores em idade ativa passaram a buscar uma vaga e 45% ficaram inativos. Um ano antes, na comparação entre 2014 e 2013, a composição era inversa - 44% se declaravam parte da população que procurava emprego, ou havia arrumado um, e 55% estavam fora.
"Com menores ganhos reais, as pessoas têm mais incentivo para procurar emprego", diz Bruno Campos, da LCA Consultores. O aumento proporcional de pessoas que decidiram buscar uma vaga ajuda a explicar por que o desemprego no país cresceu em janeiro, chegando a 6,8% na média do trimestre encerrado naquele mês. Um ano antes, em janeiro de 2014, estava em 6,4% pela metodologia da Pnad Continua, que considera médias móveis trimestrais. Essa alta representa mais 500 mil pessoas na situação de desemprego nessa comparação, número que cresceu apesar da geração de 1,1 milhão de postos de trabalho no período.
Nos últimos anos, o aumento da renda das famílias permitiu a muitos jovens adiar a entrada no mercado de trabalho e a outros grupos sair para estudar ou cuidar dos filhos. Essa dinâmica ajudou a reduzir o desemprego e a mantê-lo em níveis historicamente baixos mesmo com a desaceleração do crescimento. Para analistas do mercado de trabalho, o desemprego crescerá mais em 2015 pela combinação da reversão desse fenômeno e pelo aumento das demissões, com elevação dos cortes na indústria e na construção e um menor ritmo de criação de vagas no comércio e em serviços, setores que ainda geraram vagas no ano passado.
Na avaliação de Clemente Ganz Lucio, diretor-técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócioeconômicos (Dieese), assim como em "bons momentos econômicos" jovens e mulheres saem do mercado, porque podem ser sustentados pelas famílias, eles voltam em situações de desemprego para cobrir eventuais perdas de orçamento. Em 2015, diz, se espera uma deterioração do mercado de trabalho pela combinação desse comportamento com o aumento de demissões.
Em períodos de ajuste estrutural, as empresas tendem a demitir em todos os níveis. "Você não consegue manter o profissional de alta qualificação e só demitir os ajudantes de menor qualificação, ou o contrário", diz Lucio.
Como a expectativa é que os cortes também atinjam o setor de serviços, o volume de contratações nesse setor também deve perder fôlego. Nas estimativas da GO Associados, 2015 vai contabilizar uma perda de 50 mil postos, diz o economista Fabio Silveira. No ano passado, ainda foram abertas quase 400 mil vagas, apesar do fechamento líquido de postos na indústria e na construção.
Nas estimativas de Silveira, a indústria vai aprofundar as demissões - para reduzir custos e ganhar produtividade -, enquanto o setor de construção será afetado pela redução dos investimentos e pelos efeitos da Lava-Jato. Esse movimento duplo, diz ele, "vai contaminar o varejo e o segmento de serviços, onde a geração de vagas vai perder muito fôlego". Para Silveira, o emprego também vai afetar toda a estrutura produtiva, tanto o mais qualificado como os profissionais de baixa qualificação.
Nas projeções da consultoria, a massa salarial ainda crescerá este ano, mas apenas 1%, percentual muito inferior à alta de 3,5% registrada no ano passado, segundo dados calculados com base na PME. Como o emprego não cresce, a massa salarial será puxada pelo aumento do rendimento médio, pondera Silveira.
Na Pnad Contínua, os aumentos de 2,1% da renda média e de 1,2% da ocupação no trimestre encerrado em janeiro mantiveram crescimento ainda expressivo da massa salarial, de 3,7% - mostrando que a renda disponível para o consumo ainda é maior no interior do que nas seis regiões metropolitanas da PME, diz Thais Zara, economista-chefe da Rosenberg & Associados.
Altas como essas, entretanto, especialmente da renda média, dificilmente se repetirão no decorrer do ano, diz Campos, da LCA. "A força de trabalho deve continuar crescendo em ritmo forte, maior do que o da população ocupada. Um cenário de oferta maior que demanda pressiona os salários para baixo".
Fonte: Valor Econômico, por Denise Neumann e Camilla Veras Mota, 13/03/2015

