A cada dia, um motivo. Medo de interferência política na Petrobras e em outras estatais, de um jeitinho no teto de gastos, o alastramento da pandemia em sua nova (e pior) variante, alta de juros americanos, e agora o PT à espreita. A bolsa brasileira acumula desvalorização de 7% no ano e os investidores nunca estiveram tão pessimistas - ou tão preparados para um cavalo de pau na volatilidade.
O mercado brasileiro entrou em março com a maior posição da história em contratos de aluguel, usados para apostar contra uma ação ou índice ou para proteção de carteira em quedas bruscas - a operação se dá por meio da venda do ativo alugado no mercado com a perspectiva de recomprá-lo mais adiante a um preço mais baixo, embolsando a diferença. Um levantamento da consultoria Economatica mostra que o estoque no BTC somava quase R$ 105 bilhões há uma semana. Em meados do ano passado, não chegava a R$ 62 bilhões.
É claro que olhar somente o estoque financeiro pode ser uma pegadinha, pela variação de preço dos papéis - a Vale, por exemplo, aparece no topo da lista de estoques e tem cotação galopante há seis meses -, então vamos aos contratos. Os negócios mensais efetuados no BTC somaram 328 mil em fevereiro, ante 317 mil em janeiro, 277 mil em dezembro, e por aí segue a retrospectiva, descendo a escada.
O levantamento tem um gap de uma semana, o que pode ser uma eternidade no mercado, mas como as perspectivas não mudaram para melhor, o retrato hoje não fica muito diferente, garantem gestores ouvidos pelo Pipeline.
Papéis da Petrobras, de bancos e de varejistas lideram esses números. A petrolífera dispensa explicações, os bancos estão com rentabilidade pressionada e já havia expectativa de que pudessem ser o cobertor do governo federal para outras contas (o aumento da CSLL veio), e as varejistas que conseguiram se adaptar à pandemia dispararam no último ano.
“O número de short está alto sim. A posição de aluguel é um gráfico que só vai subindo então dá para dizer com alguma certeza que o mercado em geral está com uma posição mais pessimista”, diz Luiz Fernando Missagia, sócio de renda variável da Ace Capital. “São players grandes mais protegidos ou esperando pior cenário.”
Missagia dá peso relevante à mudança na curva de juros americana, que afeta não só o Brasil, como outros mercados emergentes - se renda fixa volta a render mais, os portfólios se ajustam rapidamente. “No Brasil, o ponto mais relevante é a piora da pandemia e a má administração do governo disso. O presidente não ajuda, não tem postura de liderança e não chama o problema para si.”
Na Ace, Missagia aumentou a posição comprada em papéis que caíram muito - como administradoras de shoppings, olhando a retomada de longo prazo. Mas não tirou o pé do short de índice.
“Nos últimos 40 dias, tivemos um monte de notícia, no Brasil e lá fora, que chacoalhou o mercado e trouxe maior volatilidade. A percepção do mercado piorou”, diz Augusto Lange, sócio e gestor da Neo Investimentos.
“A tendência do mercado de aluguel é muito correlacionada com tendência de aversão a risco. Vai caindo aversão e o estoque de aluguel vai caindo junto, com menor necessidade de proteção”, diz. Na Neo, as posições são relativas para aproveitar distorções - como o dedo do Planalto mexeu mais com as ações ordinárias da Petrobras, a asset passou a ficar comprada em ON e vendida em PN.
O volume de aluguel de BDRs e ETFs também aumentou, segundo a Economatica. Uma ponderação válida feita pelos investidores é que o mercado brasileiro de ações aumentou - em número de investidores, em volume médio diário, em patrimônio dos fundos, o que torna natural um reflexo em outras posições, como o aumento de estoque absoluto do BTC, acompanhando uma posição relativa ao volume do mercado à vista.
Este texto foi originalmente publicado pelo Pipeline, o site de negócios do Valor Econômico
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Maria Luíza Filgueiras — De São Paulo, 10/03/2021

