Praticamente sem trabalho - e faturamento - há um ano, o francês Damien Timperio foi pego de surpresa quando o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, colocou a concessão do Anhembi na rua, em plena pandemia. O timing desagradou, mas não vai impedir um investimento de R$ 1 bilhão em cinco anos. Afinal, mais cedo ou mais tarde, os grandes eventos voltarão.

À frente do braço brasileiro da GL events, uma gigante de eventos listada na bolsa de Paris, o executivo não quis desperdiçar os estudos de viabilidade já realizados pela companhia francesa no vai-e-vem que marcou as discussões sobre a concessão do complexo do Anhembi, iniciadas ainda no governo de Fernando Haddad. Sob a gestão de João Doria, a Prefeitura tentou a privatização do espaço, mas Covas acabou voltando ao modelo de concessão.

Com o aval da matriz francesa, Timperio levou a concessão do Anhembi, numa aposta que demonstra confiança na recuperação de um modelo de negócios que foi atropelado pela covid-19.

Com as restrições a aglomerações, a GL viu o faturamento minguar, passando de € 1,3 bilhão para € 500 milhões. Na Euronext, as ações perderam metade do valor desde o ano passado - o valor de mercado da companhia está em € 330 milhões.

O Brasil costumava ser o segundo país mais importante da empresa, com 10% do faturamento, mas acabou ultrapassado pela China, um país que lidou melhor com a covid-19. No Brasil, a GL gere espaços como o Riocentro e a arena multiuso Jeunesse, no Rio, e produz a Bienal Internacional do Livro carioca.

O baque só não foi maior porque o governo francês saiu em socorro de empresas derrubadas pela covid-19, bancando 85% da folha de pagamentos e dando garantias na renegociação de crédito. O Palácio do Eliseu também viabiliza um olhar para o futuro, como a participação da GL em grandes eventos esportivos - a Olimpíada de Paris é um dos mais relevantes -, e o investimento em São Paulo.

“A ajuda é significativa”, diz Timperio, que está no Brasil desde 2006. O executivo veio para o Rio como funcionário da GL, que estreou no país prestando serviços para os Jogos Pan-Americanos.

No Anhembi, a GL terá o direito de explorar o espaço por 30 anos. O contrato com a SPTuris, dona do espaço, prevê uma outorga de R$ 53,7 milhões - 12,5% do faturamento bruto também será destinado à estatal -e deve ser assinado ainda em março, liberando o grupo para iniciar um investimento que deixará São Paulo apta a receber eventos globais

“São Paulo já tem aeroporto, hotéis, mas não um espaço de eventos desse porte”, diz o executivo francês.

O cinquentenário complexo do Anhembi conta com um centro de convenções tímido para encontros do FMI ou conferências da ONU. “É um espaço obsoleto que não comporta 6 mil pessoas confortavelmente”. A ideia é contar com um espaço capaz de receber de 10 a 15 mil pessoas simultaneamente, com uma estrutura de plenárias típica de encontros de órgãos multilaterais.

A GL não estará sozinha no pacote bilionário, que inclui a construção de uma arena multiuso para 20 mil pessoas, um equipamento que pode rivalizar com a encrencada modernização do Ginásio do Ibirapuera.

A equipe liderada por Timperio já está em conversas com investidores do ramo imobiliário para aproveitar o potencial construtivo da concessão - 300 mil m². O objetivo da futura concessionária é dotar o espaço com áreas gastronômicas e de lazer, além de um hotel. “Estamos negociando com investidores. Vamos trazer especialistas. A GL não vai fazer o hotel sozinha”, crava, escondendo o jogo sobre os parceiros.

 

Fonte: Valor Econômico - Empresas, por Luiz Henrique Mendes — De São Paulo, 10/03/2021