
O ambiente político bastante conturbado manteve os investidores na defensiva. No pregão de ontem, o dólar chegou a tocar a marca de R$ 5,87 no pior momento do dia, enquanto os juros futuros seguiram bastante pressionados, apesar de se afastarem das máximas devido ao ambiente externo mais benigno e a decisão da Câmara de manter a votação da PEC Emergencial sem alterações que pudessem desidratar o texto. Neste clima de cautela, algumas casas começam inclusive a rever suas projeções de curto prazo e de fim de ano para o câmbio.
No fim do dia, o Ibovespa encerrou em alta de 0,65%, aos 111.331 pontos, enquanto o dólar subiu apenas 0,23%, a R$ 5,7919 - mostrando alguma acomodação depois de marcar ganho de 1,65% na máxima, quando chegou a ser negociado a R$ 5,874. No mercado de juros, mais focado em temas locais e principalmente fiscais, a cautela predominou e o rendimento do contrato do Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 seguiu em patamar elevado, apesar do pequeno ajuste para baixo, saindo de 8,01% a 7,99%.
Na avaliação de Luiz Eduardo Portella, sócio e gestor da Novus Capital, a PEC precisa ser aprovada, de fato, sem mudanças para que haja um alívio no mercado e os ativos locais comecem a tirar a diferença para os pares globais. “Ainda não tivemos um respiro e a volatilidade está prejudicando todo mundo. Por isso, ninguém confia ainda que a PEC será mantida desta maneira”, alerta.
Outro sinal de que a tensão segue presente, apesar de uma certa acomodação ontem, o risco-país medido pelo spread dos contratos de cinco anos de Credit Default Swap (CDS) do Brasil se mantém nos maiores níveis desde o início de novembro. Ontem, a taxa operava no fim da tarde aos 213 pontos, após tocar 219 pontos no início do dia.
Pela manhã, os juros longos chegaram a registrar alta superior a 0,30 ponto percentual em alguns vencimentos, mas a pressão refluiu após o relator da PEC Emergencial na Câmara, Daniel Freitas (PSL-SC), confirmar que o texto seria votado como veio do Senado e que o calendário estava mantido. Até aquele momento, existia o receio de uma desidratação das obrigações fiscais, patrocinada inclusive pelo próprio presidente Jair Bolsonaro. Em um gesto à sua base de apoio, o chefe do Executivo queria excluir policiais do congelamento de salários previsto no projeto.
Diante de tanta pressão carregada nos preços, Portella afirma que “a aprovação da PEC seria um grande alívio, pois tira o risco de ruptura [da estrutura fiscal]”. O gestor afirma está animado com o fundamento global e a melhora do ritmo de vacinação no Brasil. “Mas precisamos reduzir a volatilidade da cena política e isso inclui o Judiciário”, diz.
Se por um lado a seara fiscal deixou de surpreender negativamente - pelo menos neste momento -, a expectativa de acirramento da polarização eleitoral entre Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva já faz agentes revisarem seus cenários.
Para a MB Associados, a surpresa diminui a chance de sucesso de uma candidatura de centro e antecipa um fator de incerteza para a economia brasileira. Diante deste quadro, a consultoria elevou de R$ 5,40 para R$ 5,60 a projeção para o câmbio no fim do ano e não descarta que a moeda americana ultrapasse o patamar psicológico de R$ 6,00 no curto prazo.
“De um lado, o presidente Bolsonaro, já sem o falso véu do liberalismo, enfrentará nos próximos dois anos as consequências econômicas de seus atos em conjunto com os riscos criados por Lula. Em um grau menor, não seria muito diferente da percepção de risco de 2002, quando a candidatura de Lula causava stress nos mercados”, diz relatório da consultoria divulgado ontem.
“Essa economia mais pressionada na inflação, com juros elevados, mata a recuperação mais forte que poderia haver em 2022 na saída da pandemia. O presidente tende a entregar o segundo pior primeiro mandato em crescimento econômico desde a redemocratização, só perdendo para o Collor”, acrescenta.
A mudança de cenário após a recuperação dos direitos políticos do líder petista também fez a Necton refazer suas contas. A casa, no entanto, manteve a projeção para o dólar a R$ 5,70 no fim do ano, argumentando que a elevação de juros pelo Banco Central (BC) deve ajudar a “equalizar” parte do risco adicional e também que a autoridade monetária se mostrou desconfortável com patamares de câmbio acima deste nível.
Já Fernanda Consorte, estrategista-chefe do Ourinvest, acredita que o dólar pode cair a R$ 5,30 no curto prazo se o ritmo da vacinação no Brasil se acelerar ao entrar no segundo semestre. “O câmbio, como os outros ativos, depende muito do ritmo de vacinação. O quanto mais cedo sairmos da crise, mais rápido poderemos ver o dólar se depreciar”, avalia a profissional. “Se a vacinação se acelerar, temos chance de um câmbio mais baixo, a R$ 5,30, no curto prazo.”
Neste ambiente de incertezas elevadas, o Tesouro Nacional ofertou 1,1 milhão de NTN-Bs, sendo 500 mil para agosto de 2026, 100 mil para agosto de 2030 e 500 mil para maio de 2055. Vendeu apenas 81% da oferta, com o volume financeiro somando R$ 3,8 bilhões.
Fonte: Folha de São Paulo - Mercado, por Marcelo Osakabe, Lucas Hirata, Felipe Saturnino e Olívia Bulla — De São Paulo, 10/03/2021

