O Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna (IGP-DI) teve mais uma alta forte em fevereiro, de 2,71%, levando o acumulado em 12 meses a beirar 30%. Em relação aos 2,91% de janeiro, o indicador desacelerou, mas o resultado ficou bem acima da mediana das projeções dos analistas ouvidos pelo Valor Data, de 2,25%.

A taxa acumulada em 12 meses até fevereiro do indicador, de 29,95%, é a maior desde maio de 2003 (30,05%) alertou o economista da fundação, André Braz.

“Logo, logo essa alta em 12 meses do indicador vai ser a mais elevada desde o Plano Real”, acrescentou ele. Na prática, ainda que com taxa menor, na margem, o IGP-DI de fevereiro trouxe más notícias para a inflação, afirmou. “Notamos espalhamento da inflação na cadeia produtiva”, afirmou ele, ressaltando que esse espalhamento “é processo sem volta”.

Braz afirmou que a taxa menor foi possível por desaceleração na variação do Índice de Preços ao Produtor Amplo - Disponibilidade Interna (IPA-DI), de 3,92% para 3,40%. O IPA-DI, 60% do IGP-DI, foi beneficiado por quedas de preços em alimentos importantes, como batata-inglesa (-26,09%); leite in natura (-4,32%) e menor ritmo de inflação de soja (de 6,49% para 1,97%).

No entanto, o economista alertou que mesmo com taxa menor, na média da inflação atacadista, o setor mostra frequência maior de altas de preços, principalmente em insumos industriais. “A inflação de bens intermediários passou de 2,88% para 6,60% e, em 12 meses, tem alta de 33,68%”, afirmou.

Os exemplos de elevação vão desde segmentos com origem agropecuária até de metalurgia, pontuou o técnico. É o caso das acelerações, entre janeiro e fevereiro, de bobinas de aço, de 8,76% para 17,98%, e fertilizantes, de 8% para 18,53%.

O dólar em alta por longo período de tempo, desde o ano passado, contribuiu para intensificação de inflação no atacado, acrescentou Braz.

Caso o espalhamento dos aumentos no atacado prossiga, vai pressionar ainda mais inflação de bens finais no setor atacadista, afirmou ele - que já acelera dentro do IGP-DI (de 0,79% para 1,80% entre janeiro e fevereiro).

“Repassar altas de bens finais no atacado para itens no varejo é um pulo”, completou.

No varejo, o Índice de Preços ao Consumidor - Disponibilidade Interna (IPC-DI) acelerou de 0,27% para 0,54%, impulsionado principalmente por gasolina 6,90% mais cara. Para o técnico as condições, hoje, são de que o IPC-DI possa acelerar ainda mais.

“Não achei o resultado do IPA-DI bom”, frisou ele. “Esse espalhamento [de altas no atacado] significa que pressões inflacionárias estão ficando cada vez mais próximas ao consumidor”, concluiu o economista.

Ao ser questionado se o acumulada do IGP-DI acenderia sinal de alerta para Banco Central para trajetória da taxa básica de juros (Selic), o especialista foi cauteloso. Ele observou que aumento na Selic, por parte do BC, para conter possível aquecimento em atividade - e assim inibir avanço inflacionário -, “dificilmente” teria efeito prático em impedir altas de preços no atacado.

Isso porque são afetadas por fatores que não vão desaparecer de hora para outra, como desconfiança do exterior com o mercado brasileiro, o que estimula desvalorização do real; e aumento de demanda internacional por commodities agropecuárias. No entanto, uma alta na Selic poderia dar recado importante, de alinhamento do BC com expectativas de mercado sobre assunto, afirmou Braz.

A FGV informou ainda que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor - Disponibilidade Interna (INCC-DI) acelerou de 0,89% para 1,89% de janeiro para fevereiro.

 

Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Alessandra Saraiva — Do Rio, 09/03/2021