Representantes dos setores de comércio e serviços já não esperavam um começo de ano fácil devido à queda de renda causada pelo fim dos estímulos fiscais, mas foram surpreendidos com o novo agravamento da pandemia e voltaram a rever projeções de faturamento para baixo. Como os serviços representam quase 73% do Produto Interno Bruto (PIB) e são os mais afetados pelas medidas de distanciamento, a maior duração do quadro atual pode diminuir ainda mais as perspectivas para o crescimento econômico neste ano.

O Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV) cortou recentemente a projeção para a expansão do PIB em 2021, de 3,6% para 3,2%, e o novo número já tem viés de baixa, afirma a pesquisadora Luana Miranda. O cenário atual conta com duas quedas seguidas no primeiro e no segundo trimestres, ambas de 0,5%, que serão influenciadas principalmente pela atividade dos serviços.

No terceiro trimestre, a expectativa é de alta de 1,7% do PIB, mas o atraso na vacinação, que pode prolongar ainda mais as restrições à circulação, coloca dúvidas em relação a essa estimativa, diz Luana. “Temos muita preocupação a respeito do segundo semestre. Pelas condições atuais, já está dado que o primeiro e o segundo trimestres serão difíceis, mas isso pode se estender para o terceiro trimestre”, alerta ela, que destaca a imunização da população como essencial para que os serviços tenham retomada mais forte.

Para a LCA Consultores, o PIB dos serviços vai crescer 2,5% no ano, menos que os 3,2% previstos para a média da economia. “A projeção mostra o impacto que o setor ainda sentirá dessas restrições às circulação, como uma reedição do que vimos no ano passado”, comentou o economista Rodrigo Nishida. “Com o fechamento da economia, no ano passado e agora em 2021, as pessoas preferiram consumir bens industriais do que serviços, mesmo porque muitos deles não estavam disponíveis”, acrescentou.

A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) afirma que é difícil projetar a magnitude da retomada do consumo presencial nos próximos meses, devido à evolução da crise sanitária. Por isso, a CNC trabalha com três cenários diferentes para 2021. Dentro do PIB, a atividade do comércio é um componente dos serviços.

No cenário-base, que inclui alguma redução do isolamento ante dezembro de 2019, as vendas teriam avanço de 5,9% sobre 2020, e o setor reabriria 16,7 mil novos pontos de venda. Em uma hipótese mais otimista, no qual o isolamento retornaria aos níveis pré-pandemia, o volume de vendas cresceria 8,7% e 29,8 mil estabelecimentos seriam abertos. Por fim, em quadro mais pessimista, no qual o confinamento se mantém ligeiramente abaixo do patamar de dezembro de 2020, o saldo entre abertura e fechamento de lojas seria positivo em 9,1 mil unidades no ano. No ano passado, 75 mil lojas fecharam.

“A retomada não ocorreu conforme o previsto e continuamos experimentando as consequências e o agravamento da situação, com o retorno de medidas que incluem o fechamento de estabelecimentos”, diz José Roberto Tadros, presidente da CNC. Devido à piora da pandemia, a entidade enviou ofício nesta quarta ao Ministério da Economia e à Federação Brasileira de Bancos (Febraban), pedindo a prorrogação para pagamento dos empréstimos do Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe).

Segundo Fabio Pina, assessor econômico da FecomercioSP, a medida seria importante para garantir a sobrevivência de pequenas empresas, que representam cerca de 95% do setor, ao período de maior fechamento das atividades. “Ninguém está questionando as decisões sanitárias, mas o fato é que o tecido social está bastante combalido”, diz.

O e-commerce ganhou espaço em meio à pandemia, afirma Pina, mas ainda tem participação muito pequena no varejo paulista, de cerca de 4%. Com as lojas de rua fechadas, a entidade calcula que a fase vermelha do Plano São Paulo vai gerar uma perda de faturamento de cerca de R$ 11 bilhões em março. “A expectativa é que em meados de março já possamos ter um retorno gradativo das atividades, mas, se isso ocorrer só em abril, já teremos que refazer as contas.”

Essa também é a avaliação da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), diz Paulo Solmucci, presidente da entidade, que espera relaxamento das restrições a partir do dia 15 deste mês. Mesmo assim, a interrupção no funcionamento dos estabelecimentos em várias cidades desde janeiro já afetou a atividade do setor, que passou a prever faturamento de R$ 215 bilhões em 2021 - R$ 20 bilhões a menos do que a projeção anterior.

“Estamos prevendo queda na ordem de 30% do faturamento no primeiro trimestre em relação ao primeiro trimestre de 2020”, relata Solmucci.


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Arícia Martins — De São Paulo, 05/03/2021