No evento mais aguardado do dia, o presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, acabou trazendo mais tensão sob o já tenso mercado americano. Os rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA voltaram a dar um salto, e Wall Street encerrou o pregão no vermelho.
Os comentários de Powell, feitos ontem em um evento organizado pelo “The Wall Street Journal”, não conseguiram aliviar os temores de que o Fed pode estar reagindo muito lentamente à elevação das expectativas de inflação e à escalada dos “yields” (retornos) dos Treasuries. Powell reiterou a intenção do BC americano de manter o alto nível de acomodação monetária intacto.
O juro do Treasury de dez anos encerrou as operações a 1,54%, em nova máxima desde fevereiro de 2020 - ontem fechou a 1,47%. A elevação das últimas semanas “foi notável e chamou minha atenção”, disse Powell. Segundo ele, uma alta desordenada dos juros dos Treasuries seria preocupante, mas sugeriu que ainda não vê um impacto significativo sobre as condições financeiras, reiterando também que espera que uma eventual alta da inflação seja transitória.
Jerome Powell reiterou a intenção do Federal Reserve de manter o alto nível de acomodação monetária intacto — Foto: Reprodução/Youtube
Na Bolsa de Nova York, o índice S&P 500 recuou 1,34%, a 3.768,47 pontos, e o Dow Jones caiu 1,11%, a 30.924,14 pontos. As ações de tecnologia tomaram mais um tombo, e o Nasdaq terminou o pregão em queda de 2,11%, a 12.723,47 pontos, acumulando perdas de 9,73% desde o pico recente e ficando a poucos pontos de entrar no chamado “território de correção”.
“Da perspectiva dos mercados de títulos, o principal ponto é que Powell está preparado para deixar a inflação decolar, e não deve tomar ações em relação a isso, a não ser que ela saia do controle”, afirmou James Knightley, economista-chefe internacional do ING, em nota.
“O problema é que não saberemos se [a inflação] está ou não sob controle até que a deixemos solta por um tempo. Este é um conjunto desconfortável de circunstâncias do ponto de vista do investidor de renda fixa, e especialmente para os papéis de longo prazo, cujo valor pode ser rapidamente corroído pela inflação”, explica Knightley.
Powell reiterou também os comentários que vem fazendo nas suas últimas aparições públicas sobre o mercado de trabalho americano - que, de acordo com o banqueiro central, ainda está longe do pleno emprego e que a postura atual do BC americano ainda é apropriada.
“Não estamos fazendo muito progresso em relação ao mercado de trabalho ultimamente [...]. A criação de vagas de trabalho simplesmente não tem sido suficiente para alcançarmos o pleno emprego tão cedo”, disse Powell.
Questionado sobre a possibilidade de que os bancos centrais estariam subestimando a relação entre um mercado de trabalho apertado e a inflação, como acontecia claramente no passado, o presidente do Fed disse que a situação atual é bem diferente da enfrentada nas décadas de 60 e 70.
“O Fed falhou em agir para conter a pressão inflacionária no passado, mas a situação hoje não é a mesma. A inflação não está alta demais, e ainda está abaixo da meta de 2%”, disse. Powell se recusou também a fazer comentários sobre o tamanho do pacote fiscal de estímulos que está em processo de aprovação em Washington e sobre a possibilidade de que ele aceite seguir no cargo por um segundo mandato.
As perdas foram amplas entre quase todos os setores do S&P 500, com apenas as ações de serviços de comunicação e de energia fechando com ganhos - este, ajudado pela alta do petróleo.
Os contratos futuros do petróleo dispararam com a decisão da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e Aliados (Opep+) de estender os cortes de produção até abril. Além da extensão dos cortes de produção acordada na reunião de ontem do grupo, a Arábia Saudita também concordou em manter o seu corte unilateral de produção de 1 milhão de barris por dia até o fim de abril - Rússia e Cazaquistão receberam autorização para elevar um pouco a produção.
O contrato do petróleo Brent para maio teve alta de 4,16%, a US$ 66,74 por barril na ICE, em Londres, enquanto o do WTI para abril avançou 4,16%, a US$ 63,83 por barril na Bolsa de Mercadorias de Nova York. “A decisão saudita de estender seu corte voluntário de 1 milhão de barris por dia foi chocante, pois os deixa vulneráveis a perder participação de mercado no próximo mês”, disse Edward Moya, da Oanda.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por André Mizutani e Rafael Vazquez — De São Paulo, 05/03/2021

