Além do resultado anual decepcionante, a abertura dos números do Produto Interno Bruto (PIB) no quarto trimestre divulgados ontem complicam mais o discurso da equipe econômica, comandada pelo ministro Paulo Guedes. Embora um único trimestre seja insuficiente para se apontar tendências, a queda forte do investimento de 3,3% e a alta de 0,4% do consumo do governo ensejam dúvidas sobre pontos recentemente salientados pela equipe econômica, em especial sobre o papel do setor privado no atual ciclo.
A nota técnica divulgada ontem pela manhã retoma o argumento de o PIB privado estar puxando o crescimento, mas o relatório ainda não incorporava os dados do quarto trimestre relativos ao que a Secretaria de Política Econômica convencionou chamar de PIB público e PIB privado. Vale lembrar que essa qualificação é alvo de polêmica entre os economistas.
A expansão do conjunto de riquezas produzidas pelo país nos últimos três meses do ano foi de 0,5%. Em termos anualizados, significa 2%. Comparado ao 1,1% do ano, não seria um mau resultado. Mas mostrou desaceleração ante o terceiro trimestre, com um perfil distinto do que tanto propalaram os representantes do governo quando os números de julho a setembro vieram à tona.
Pode ser só uma acomodação pontual, como já começam a aventar os técnicos. Porém, é inevitável que se renovem as preocupações com a crônica dificuldade de o Brasil voltar a crescer em ritmos mais condizentes com suas necessidades. Para piorar, os impactos econômicos do coronavírus e a insistência do presidente Jair Bolsonaro em manter o ambiente político absolutamente conturbado tornam o início de 2020 cada vez mais incerto.
Nesse quadro, é natural o aumento da pressão sobre Guedes, em especial da área política. O time do ministro demonstra firme convicção do caminho adotado e tem reiterado sua visão de que não cabe ampliar gastos com investimentos públicos para tentar quebrar o ciclo de fraca demanda. A mensagem continua sendo de perseverança na agenda de reformas, que agora têm o deadline das 15 semanas de Guedes.
O drama é que já se foram três anos de agenda reformista, com entregas relevantes como teto de gastos, TLP, trabalhista e Previdência, sem falar em outras iniciativas, e na prática os resultados seguem medíocres. É de se esperar que os ataques se ampliem e coloquem à prova o tamanho da convicção de Bolsonaro com o plano de Guedes.
Ao evitar comentar o PIB e ainda lamentavelmente promover o circo com um humorista sem graça que distribuiu bananas a jornalistas na porta do Palácio da Alvorada, Bolsonaro passa recibo de sua contrariedade com os resultados. Busca claramente desviar o foco da promessa não cumprida de fazer o Brasil crescer mais e da dificuldade de pacificar sua relação com o Congresso, a quem cabe votar as reformas de Guedes. O que só aumenta as incertezas que enfraquecem a economia.
Fonte: Valor-Brasil, por Fabio Graner - Brasília, 05/03/2020

