
A mais recente rodada de turbulência nos mercados locais, deflagrada pela intervenção do governo no comando da Petrobras, colocou de sobreaviso os investidores estrangeiros no Brasil. Dados mostram que, embora não seja possível falar em uma debandada de capitais do país no momento, esse grupo interrompeu a trajetória de aportes na bolsa e também voltou a montar posições defensivas no câmbio.
Apenas na semana passada, os estrangeiros retiraram R$ 10,8 bilhões da B3 em cinco dias consecutivos de fluxo negativo, de acordo com dados do mercado à vista e dos contratos futuros de Ibovespa. Esses saques mais que zeraram as entradas nas demais semanas de fevereiro, fazendo com que o mês encerrasse negativo em R$ 4,2 bilhões.
O movimento chama bastante a atenção porque, até então, o ano vinha sendo marcado por entrada bastante significativa de capital externo na bolsa, dando continuidade ao movimento visto nos últimos meses de 2020. No acumulado de 2021, o saldo de estrangeiros continua superavitário em R$ 18,6 bilhões, mas já distante da marca de R$ 29,4 bilhões na véspera do estouro da crise.
Ao mesmo tempo, houve uma corrida para recompor posições em dólar - o hedge natural em momentos como esse. Desde o último dia 19 até esta terça-feira, 2, os investidores estrangeiros elevaram sua posição comprada em dólar (apostando na desvalorização do real) em US$ 4,5 bilhões, para US$ 35,1 bilhões. Esses números consideram os contratos de dólar futuro cheio, dólar mini e cupom cambial (DDI).
A fuga para o dólar também foi vista entre os investidores institucionais locais, que reduziram sua posição vendida em dólar (apostando na alta do real) em US$ 5,4 bilhões no período, para US$ 48,3 bilhões.
Dados do Banco Central mostram ainda que essa movimentação toda também se traduziu em saída de dólares do país, mas de forma bem mais tímida. O fluxo financeiro ficou negativo em US$ 1,403 bilhão na semana passada, entre os dias 22 e 26 de fevereiro. O número não assusta -- mesmo com o resultado da semana passada, a conta de capital continua positiva em US$ 6,631 bilhões no ano até o último dia 26. Ainda assim, pode representar o início de uma quebra em relação ao comportamento da conta de capitais em 2021.
A mudança teve início com a canetada do presidente Jair Bolsonaro na Petrobras, mas se aprofundou em meio às incertezas fiscais trazidas com a votação da PEC emergencial e o recrudescimento da crise de covid-19, que ameaça a recuperação econômica do país.
Para Juliano Arruda, diretor da área comercial da mesa de renda variável para a América Latina do Godlman Sachs, estes são, até agora, movimentos de acomodação do investidor estrangeiro, que está à espera de respostas a perguntas que o próprio país pode dar, como a questão das reformas e o controle da pandemia.
“Acredito que é um movimento mais tático, de esperar para avaliar conforme dados forem aparecendo”, diz Arruda. Ele ressalta que o ambiente de ampla liquidez e crescimento mais forte mundial continua beneficiando ativos de risco como os do Brasil, mas alerta: “Para o investidor que tem liberdade de investir globalmente, cujas decisões fazem a diferença em termos de preço, realmente é necessário ter um caso interessante por si só. Precisa fazer a lição de casa”.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Marcelo Osakabe e Lucas Hirata — De São Paulo, 04/03/2021

