
Faltando menos de duas horas para o fim de um pregão turbulento e rodeado de incertezas, o mercado brasileiro encontrou motivos para uma virada impressionante. Em um tuíte, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), descartou a possibilidade de deixar o Bolsa Família fora do teto de gastos, amenizando a preocupação com um descontrole das contas públicas. Esse foi o gatilho para tirar o Ibovespa de uma queda de mais de 3% e zerar a alta do dólar - algo que nenhuma intervenção do Banco Central foi capaz de fazer ao longo do dia.
Para se ter uma ideia do tamanho do movimento, o Ibovespa saiu da marca de 107.466 pontos (-3,65%) para 112.398 pontos (+0,77%) em poucos minutos. É possível dizer, portanto, que o “preço do medo” foi de aproximadamente 5 mil pontos na bolsa. Depois da reação inicial, o índice passou por uma certa acomodação e fechou em leve queda 0,32%, aos 111.184 pontos, com giro financeiro de R$ 37,2 bilhões.
Já o dólar comercial desabou mais de 11 centavos e ficou perto de fechar em terreno negativo. Após tocar R$ 5,6374 na mínima intradiária, a moeda encerrou praticamente estável, em alta de 0,05%, a R$ 5,6659. Em um sinal de que ajuste pode continuar hoje, o contrato futuro da divisa americana encerrou o pregão em queda de 1,12%, aos R$ 5,6235.
Até então, nem a injeção do equivalente a US$ 2 bilhões pelo Banco Central através de swaps cambiais havia sido suficiente para trazer maior tranquilidade ao câmbio - na máxima, por volta das 13h, o dólar chegou a R$ 5,772. E não faltavam motivos para estresse: preocupações com a nova rodada de restrições impostas por governo estaduais para limitar o avanço da pandemia, temores fiscais e também um cenário externo negativo.
Mas o principal ponto de alerta dos agentes, como se pôde ver na reta final do pregão, era com uma nova manobra de senadores para tirar o Bolsa Família do teto de gastos. Segundo apurou o Valor, uma ala de lideranças da Casa passou a articular a medida para abrir espaço para obras no Orçamento. A exclusão do programa abriria um espaço de R$ 34,9 bilhões.
Após reunião com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG) e com integrantes do Planalto, Lira refutou a ideia. “Quero deixar claro que são infundadas todas as especulações sobre furar o teto. Tanto o Senado quanto a Câmara votarão as PECs sem nenhum risco ao teto de gastos, sem nenhuma excepcionalidade ao teto. Essas especulações não contribuem para o clima de estabilidade e previsibilidade”, escreveu em seu perfil no Twitter.
Outro fator positivo foi a decisão, oficializada com a complementação de voto do relator Marcio Bittar (MDB-AC), de limitar em R$ 44 bilhões o gasto com o novo auxílio emergencial este ano. Até então, a proposta não trazia limite para os gastos com o benefício.
Junto com o prêmio embutido nos ativos locais, o risco fiscal também vem pesando sobre as perspectivas para a política monetária. Mesmo com a fala do presidente do Banco Central, Roberto Campos, indicando calma ao mercado em relação ao rumo da taxa Selic, os juros de curto prazo seguiram em alta durante a sessão regular e até ampliaram nos preços a probabilidade de uma elevação de 0,75 ponto da Selic na reunião de março.
“Estamos olhando todas as variáveis, não só locais, como internacionais”, disse o dirigente em palestra na noite de terça-feira. Campos ressaltou, ainda, que o BC possui hoje um amplo conjunto de instrumentos para fazer com que as metas sejam cumpridas.
Ainda assim, a ansiedade dos agentes com a discussão sobre a PEC Emergencial explicou, em grande medida, o movimento de alta nos juros futuros, em uma demonstração de que, para o mercado, um descumprimento mais flagrante das regras de limite de gasto poderia impor uma ação mais forte do BC. A precificação extraída da curva de juros ao fim da sessão regular - pouco antes do tuíte de Arthur Lira - mostrava chance de 87% de alta de 0,75 ponto percentual da Selic na reunião de março. Na terça, essa probabilidade era de 81%.
Segundo Solange Srour, economista-chefe do Credit Suisse, apesar dessas falas, Campos Neto se atentou em indicar preocupação com a convergência da inflação em relação à meta perseguida pela autoridade monetária, o que sinaliza que uma normalização já neste mês não está fora da mesa. A expectativa do Credit Suisse é de que o BC inicie a alta de juros já em março, com dose de 0,50 ponto percentual.
“Não acho que o mercado esteja exagerando na precificação [para o Copom], acho que o mercado só se adianta a um cenário pior”, disse Srour, em entrevista no início da tarde, referindo-se a riscos associados à PEC Emergencial, que fariam o câmbio se depreciar ainda mais e as expectativas de inflação se desancorarem.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Lucas Hirata, Marcelo Osakabe, Felipe Saturnino e Olívia Bulla — De São Paulo, 04/03/2021

