A forte recessão significou uma queda de 4,8% Produto Interno Bruto (PIB) per capita brasileiro no ano passado, para R$ 35.172, o pior desempenho desde o início da série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), iniciada em 1996. Diante da magnitude da perda e da expectativa de crescimento fraco da economia a curto prazo, economistas estimam longo caminho pela frente para recuperar essas perdas.

O PIB per capita é um indicador usado para medir a riqueza dos países e é calculado a partir da divisão do valor do PIB pela população total. A retração de 4,8% em 2020 fecha uma década que significou uma perda de 5,5% do PIB per capita. No período, as perdas mais intensas ocorreram, além de 2020, em 2015 (4,4%) e em 2016 (4,1%), anos também de recessão. Pelas contas do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV), que une séries mais antigas do PIB, a perda de 2020 é a mais intensa desde 1981 (-6,3%).

“Tivemos uma queda forte em 2020 e também muito significativa na década. Com isso, levaremos alguns anos para reconstruir o PIB per capita, com uma implicação social imensa. A população está empobrecendo, ficando mais informal e, no meio de tudo isso, ainda há a questão da influência da tecnologia no mercado de trabalho. É uma preocupação grande para os próximos anos”, afirma o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale.

Economista da LCA Consultores e pesquisador do Ibre/FGV, Bráulio Borges reforça que o recuo de 4,8% do PIB per capita no ano passado ocorreu a partir de um patamar já deprimido. “O maior nível do PIB per capita ocorreu no início de 2014. No fim de 2014, já estávamos 6,6% abaixo daquele nível. Com o desempenho de 2020, isso se acentuou e o patamar atual está 11,7% do pico da série de PIB per capita”, diz.

Na projeção da MB Associados, o PIB per capita deve avançar 1,9% em 2021, considerando a estimativa de alta de 2,6% do Produto Interno Bruto (PIB). Nas contas de Bráulio Borges, que leva em consideração uma expansão média de mercado de 3,5% do PIB, o ritmo seria um pouco maior, de 2,8%. Já a Ativa Investimentos projeta uma variação entre 2,2% e 2,5% do PIB per capita este ano. Todas as projeções ficam longe de recuperar só o ano de 2020, quanto mais as retrações passadas. Como as estimativas de expansão do PIB também não apontam aceleração do ritmo para 2022 e 2023, isso se repete no caso do PIB per capita.

As preocupações dos economistas também se estendem aos impactos da pandemia sobre o capital humano, que afetam a produtividade da economia e sua capacidade de crescimento. “A pandemia destruiu capital humano em vários aspectos. Há quem ache que o capital humano seja apenas a educação formal, mas vai além disso, inclui também as habilidades adquiridas no ambiente de trabalho e questões de saúde, inclusive a mental. As pessoas que ficam fora do mercado por um, dois anos têm uma perda grande”, aponta Bráulio Borges.

Economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez também vê um cenário lento de recuperação do PIB per capita diante da expectativa de recuperação muito gradativa da economia brasileira. Ele lembra que um crescimento maior da economia facilitaria uma melhor distribuição de renda no país, mas aponta que o patamar atual do PIB per capita sugere que já haveria espaço para isso. “Só que existe uma dificuldade muito grande do processo distributivo com um Estado que gasta mal e de forma engessada, com grande parte destinada a despesas obrigatórias. A necessidade das reformas entra também nesse contexto”, aponta.

 

Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Lucianne Carneiro — Do Rio, 04/03/2021