Durou pouco a lua de mel do investidor estrangeiro com a bolsa brasileira. Apenas nos três primeiros dias da semana passada, ele sacou R$ 9,2 bilhões da B3. O balanço do mês virou negativo, com resgates superando aplicações em R$ 4,89 bilhões. A reviravolta interrompe a trajetória de recuperação iniciada no segundo semestre de 2020, após a debacle causada pela pandemia do novo coronavírus.
O mal-estar estourou depois do carnaval, quando o presidente Jair Bolsonaro criticou a gestão da Petrobras e antecipou a intenção de mudar a presidência, transferindo-a das mãos de Roberto Castello Branco para as do general Joaquim Luna e Silva. Bolsonaro não parou aí. Censurou a política de preços da Petrobras, prudentemente espelhada com as tendências internacionais uma vez que o Brasil importa parte do combustível consumido dada a capacidade limitada de refino; e ainda recomendou que a empresa precisa ter “visão social”.
Acenou ainda com interferência na energia elétrica, segmento em que muitas empresas de distribuição, transmissão e geração foram concedidas ao setor privado. Na sequência, o presidente do Banco do Brasil, André Brandão, na mira de Bolsonaro desde que anunciou cortes da rede de agências, colocou à disposição o cargo que ocupa há apenas seis meses e deve ter o destino selado nesta semana (Valor, 1/3).
Pode ser que nem todo o dinheiro resgatado de aplicações na bolsa pelo investidor estrangeiro tenha deixado o país. Uma parcela pode ter sido direcionada para outras atividades. Isso só poderá ser verificado quando o Banco Central (BC) divulgar o movimento do câmbio contratado, nesta semana. Depois da enxurrada de US$ 51,2 bilhões que saíram do país pelo câmbio financeiro em 2020, a maré parecia ter sido revertida neste ano. Em janeiro, o fluxo foi positivo em US$ 3,6 bilhões; e, em fevereiro, seguia no azul, em US$ 4,4 bilhões no levantamento mais recente, até o dia 19.
O balanço das contas externas do Banco Central dá uma dimensão mais precisa do movimento. Segundo os dados, o investimento em carteira, que abrange as aplicações no mercado financeiro, foi negativo em US$ 8,5 bilhões em 2020, aprofundando a trajetória de 2019, quando ficou no vermelho em US$ 6,7 bilhões, com os resgates concentrado em ações e fundos. A conta inclui também o desmonte de posições em títulos da dívida mobiliária, provocado pela preocupação fiscal. A participação do investidor estrangeiro no estoque da dívida mobiliária encolheu de 11,2% em 2018 para 9,2% de 2020.
A saída do investidor estrangeiro do mercado brasileiro já era esperada, em consequência da pandemia e seus efeitos na economia. Somente de março a junho as saídas da conta de investimentos em carteira chegaram a US$ 35,3 bilhões. A partir do segundo semestre, porém, a recuperação da bolsa atraiu capital e a conta foi reduzindo as perdas até ficar em um quarto disso. O investimento direto no país foi afetado pelos mesmos motivos, embora tenha ficado no azul: despencou de US$ 69,2 bilhões em 2019 para US$ 32,2 bilhões em 2020, o menor volume desde 2009.
Mas este ano havia começado com um clima mais positivo, embalado pela perspectiva de vacinação e recuperação da economia, apesar da paralisia de vários meses do Congresso, que deixou de lado a apreciação de temas importantes até a eleição das novas presidências da Câmara e do Senado, em fevereiro. Não pela primeira vez, porém, o Palácio do Planalto mudou o foco ao colocar na mesa temas periféricos e desviar do enfrentamento da pandemia e das reformas.
Ao defender mudanças na política de preços da Petrobras, para contemporizar com os caminhoneiros, e acenar com interferência também na energia elétrica, o governo amplificou a desconfiança em relação às reais intenções de avançar na privatização e na agenda do ajuste fiscal. Não surtiu efeito nem mesmo a coreografia encenada com a apresentação da Medida Provisória (MP) de privatização da Eletrobras e o aval dado ao projeto do marco regulatório dos serviços postais, que abre espaço para a modelagem de venda dos Correios. Os dois projetos são antigos e ainda precisam de vários movimentos para serem viabilizados. Para piorar, nem o governo nem o Congresso conseguem levar adiante um plano que viabilize a retomada do auxílio emergencial sem estragos fiscais maiores do que os já existentes.
A recuperação da bolsa ontem, na esteira de novo aumento dos preços dos combustíveis anunciado pela Petrobras, evidencia que os problemas continuam, assim como a volatidade dos mercados.
Fonte: Valor Econômico - Opinião, 02/03/2021

