O PIB cresceu 1% em 2017. Esse é um bom resultado após dois anos de quedas consecutivas no período 2015-2016, quando houve contração de 3,5% em cada ano. A composição do crescimento em 2017 foi a seguinte: pela ótica da produção, o setor agropecuário cresceu expressivos 13%, fruto da supersafra agrícola, o setor industrial ficou estável e o setor de serviços cresceu 0,3%, tendo sido ainda gerado um aumento de 1,3% dos impostos em termos reais.

Pela ótica da demanda, o consumo das famílias cresceu 1%, o consumo do governo caiu 0,6%, o investimento recuou 1,8% e as exportações e importações subiram 5,2% e 5,0%, respectivamente, de modo que a contribuição líquida do setor externo foi praticamente nula (lembrando que as importações entram com sinal contrário).

Esses números nos mostram que o setor agropecuário deu uma grande contribuição para o crescimento em 2017 e que, pela ótica da absorção, o bom desempenho foi liderado pelo consumo das famílias. Infelizmente, o investimento se contraiu pelo terceiro ano consecutivo, mas julgamos que essa tendência chegou ao fim.

No quarto trimestre de 2017, houve um arrefecimento do crescimento, em relação aos trimestres anteriores. O PIB cresceu apenas 0,1% na comparação com o terceiro trimestre, feito o ajuste sazonal. A indústria e os serviços cresceram 0,5% e 0,2% na mesma base de comparação. O consumo das famílias apresentou um crescimento muito fraco (0,1%), após forte desempenho nos dois trimestres anteriores, enquanto o investimento manteve bom ritmo (2%). Esperamos que o ritmo de crescimento do PIB se acelere no primeiro trimestre de 2018, para algo em torno de 1% com ajuste sazonal.

Para 2018, projetamos crescimento do PIB de 3%, sendo mais igualitariamente distribuído entre os setores de agropecuária, indústria e serviços, com taxas de 3%, 3,8% e 2,6%, respectivamente. Pela ótica da demanda, esperamos uma continuidade do bom desempenho do consumo das famílias, com taxa de 3% e uma forte recuperação do investimento, com crescimento projetado de 6%. O consumo do governo deve crescer aproximadamente 0,5% e a contribuição do setor externo tende a ser ligeiramente negativa, em função do aumento esperado das importações.

Para que a expansão de 3% no ano de 2018 seja alcançado, será necessário crescer a uma taxa trimestral de aproximadamente 1,1%, ou cerca de 4,5% em termos anualizados, em cada um dos trimestres. Trata-se, portanto, de um ritmo bastante robusto. No entanto, acreditamos que é possível atingi-lo pelos seguintes motivos: 1) o crédito ao consumidor está se recuperando de forma rápida e a queda das taxas de juros proporcionou um barateamento do serviço da dívida, de modo que está sobrando mais renda no bolso dos consumidores; 2) o mercado de trabalho vem melhorando, com crescimento da população empregada e dos salários reais; 3) a queda da taxa de juros também barateou o investimento e melhorou as taxas de retorno esperadas.

Além disso, o investimento caiu muito durante a recessão, de modo que existe espaço para recuperação expressiva; e 4) a confiança do consumidor e dos empresários melhorou bastante e o índice de incerteza, medido pela FGV, teve recuo considerável. Esse aumento da incerteza teve forte correlação com a queda do PIB no período recessivo.

Alguns mais céticos podem argumentar que ainda enfrentamos forte incerteza, principalmente em relação ao resultado das eleições de 2018. No entanto, o bom desempenho corrente da economia já garante, de certa forma, um crescimento moderado do consumo e do investimento em 2018.

As eleições tenderão a influenciar mais o resultado de 2019 e, aí sim, pode haver grande diferença de prognóstico, dependendo de quem ganhar o pleito. Se uma chapa comprometida com a questão fiscal e imbuída do espírito de reformas liberalizantes sair vencedora, o crescimento pode ganhar mais força em 2019. Se o contrário ocorrer, ou seja, voltarmos para um governo populista, dirigista e hostil ao livre mercado, poderemos retroceder seriamente em 2019.

Fernando Rocha é economista-chefe e sócio da JGP Gestão de Recursos

Fonte: Valor - Macroeconomia, por Fernando Rocha, 02/03/2018