Com números sinistros em sequência - 10 milhões de infectados, mais de 250 mil mortos - o Brasil se tornou o país com mais casos por milhão de habitantes na média de 7 dias na semana passada. O número de mortos é 10% do total mundial (2,5 milhões), apesar da população brasileira ser apenas 3% da global. Evidente desde o início, a falta de coordenação para enfrentar um vírus poderoso, com a franca hostilidade do presidente da República a qualquer ação contra o contágio, contribuiu para esses resultados assustadores.

Toda a experiência adquirida em vacinações em massa, pela qual o Brasil é bem avaliado, foi insuficiente para enfrentar a falta de imunizantes, atitudes divergentes de autoridades sobre extensão e duração do isolamento social, inexistência quase completa de rastreamento, descaso de parte da população com os riscos mortais do vírus e impossibilidade de grande parte dela de garantir seu sustento mantendo-se isolada.

Além da gravidade e extensão do contágio, o Brasil teve de se defrontar com rivais inesperados, sob as condições já adversas dadas pela sua péssima distribuição de renda e deteriorada infraestrutura pública. Não é comum que um presidente ignore a orientação majoritária da comunidade médica, como fez Jair Bolsonaro. É ainda mais incomum que o Executivo troque duas vezes de ministro da Saúde em pleno alastramento da covid-19, e raríssimo um mandatário que os substitua por alguém que não tem a mínima experiência na área ou familiaridade com a medicina.

Em atos de uma comédia macabra, Bolsonaro boicotou seus ministros da Saúde por não seguirem suas orientações mal informadas. O presidente tornou-se garoto-propaganda de remédios que não têm eficácia contra a covid-19. Desrespeitou as determinações sanitárias para passear sem máscara, infectando-se e infectando seus ministros. O apogeu deste festival de ignorância foi a manifestação de descrença pública do presidente de que até mesmo vacinas - engendradas em tempo recorde, uma proeza científica - não surtiriam efeitos ou ocasionariam outros, indesejados.

O esforço heróico de médicos e de todo o pessoal de apoio da saúde se mantém em meio a contratempos quase inverossímeis. Milhares de testes foram desprezados em depósitos em aeroportos e se perderam. Convênios com universidades que ensaiaram trabalhos de rastreamento - praticamente inexistente no país, ao contrário das iniciativas asiáticas e alemã, por exemplo - foram descontinuados. O governo apostou em poucas vacinas e criou uma situação paradoxal. Vacinas que receberam aprovação emergencial da Anvisa não têm produção regular por problemas de fornecimento da China. E a única vacina aprovada em definitivo, a da Pfizer e BioNTech, não está disponível no país.

O contágio da covid-19 é hoje tão intenso como no pico da pandemia em 2020. Há 35 dias o número de mortes é superior a 1 mil pessoas e as UTIs em várias capitais e grandes cidades estão a caminho do esgotamento. Mapas do Google mostram que tanto para ir ao trabalho como para recreação, o grau de mobilidade dos brasileiros é o maior entre as nações do G-20. É preciso acelerar a vacinação e regularizar o fornecimento de insumos, ao mesmo tempo em que se põe de pé um programa de imunização sensato.

É viável fazer isso. A demografia ainda favorece o Brasil. Para atingir um objetivo importante, de vacinar todos os adultos com 65 anos ou mais, o país precisa fazer um esforço consideravelmente menor que o dos países desenvolvidos. Garantir essa imunização reduziria a ocupação das UTIs, o número de casos e de mortes.

Foram aplicadas 3,8 vacinas por 100 habitantes até agora no país. Com 9 unidades todo o grupo de risco teria uma primeira dose e com, 18, a segunda, de acordo com a Oxford Economics. Com maior fatia de população idosa, o Reino Unido aplicou 27 doses por 100 habitantes - o Brasil não precisaria chegar lá. Mas, pela velocidade de vacinação em meados do mês o país levará 20 semanas (5 meses) para fazer isso - a projeção não contava com a interrupção da imunização.

Há novas vacinas a caminho (a da Johnson é uma delas) e com a autorização para que os Estados possam obtê-las seria possível sopesar parte da inoperância federal. Vacinados os grupos de risco, a economia se livrará de sua maior trava e será possível planejar os próximos passos contra a covid-19 que, suspeita-se, poderá se tornar endêmica e exigir o resgate da competência em campanhas de vacinação em massa, que um dia o país já teve.


Fonte: Valor Econômico - Opinião, 26/02/2021