O ex-secretário especial de Desburocratização, Gestão e Governo Digital do Ministério da Economia Paulo Uebel disse ao Valor que a aprovação de reformas estruturais, apesar de importantes para economia, “não vão apagar do dia para noite” a sensação de insegurança causada pela interferência do presidente Jair Bolsonaro na Petrobras, ou seja, da aproximação do atual governo da agenda populista da gestão petista de uso empresas públicas para manter preços dos combustíveis em níveis artificiais.
A atitude de Bolsonaro, conforme Uebel, ainda mostrou o enfraquecimento do ministro da Economia, Paulo Guedes, no governo. “Historicamente, [Guedes] sempre foi contra esse tipo de intervenção, esse tipo de ingerência. E agora está encurralado. Ele indicou o presidente da Petrobras, ele foi sacrificado. Indicou o presidente do BB e existe um boato que será substituído por estar fazendo uma gestão técnica, independente, profissional, focada em gerar valor para todos”, disse. O presidente do BB, André Brandão, chegou a ser ameaçado de demissão por Bolsonaro devido a anúncio de plano de reestruturação. Após a interferência na Petrobras, notícias sobre a possível saída de Brandão do cargo voltaram a circular nos bastidores.
Uebel lembrou que durante a gestão do PT ocorreram muitas interferências nas empresas estatais, com casos de corrupção e o uso delas para uma agenda mais populista, voltada a manter os preços dos combustíveis em níveis artificiais. “Isso custou muito caro para o país. A ingerência dos preços custou mais caro do que a ingerência da corrupção, em alguns casos”, afirmou.
Nos últimos dias, técnicos da equipe econômica tentaram minimizar o impacto da ingerência de Bolsonaro na Petrobras, que indicou para o comando da empresa o atual diretor-geral de Itaipu Binacional, Joaquim Silva e Luna. Esses técnicos alegam que a instabilidade é pontual e que as diretrizes da política econômica estão mantidas. A prioridade de Guedes, segundo técnicos ouvidos pelo Valor, é a aprovação da PEC Emergencial.
Uebel destaca, porém, que é preciso ver os próximos capítulos para saber se realmente é uma questão pontual ou se houve uma mudança de rota do governo, como parece hoje. “Pode ser que seja um caso pontual, mas hoje a percepção de todos os brasileiros, investidores é que houve uma ingerência política e isso pode voltar a ocorrer tanto na Petrobras quanto em outras empresas estatais”, ressaltou.
O ex-secretário tem sido bastante crítico nas mídias sociais, chegando a dizer que nunca o governo Bolsonaro foi tão parecido com o governo Dilma como hoje. “Nesse momento, Guido Mantega faria absolutamente o mesmo que Paulo Guedes está fazendo. Essa similaridade deve arrepiar qualquer cidadão de bem”, escreveu. Ele ressaltou que o presidente foi eleito para fazer o oposto do PT e que não dá para baixar preço de combustíveis na caneta. O ex-secretário lembrou que no plano de governo “Caminho da Prosperidade” a gestão profissional e técnica nas empresas estatais sempre foi defendida. “Todo mundo que votou no atual governo votou com a expectativa de que as empresas seriam geridas de forma profissional, independente, sem qualquer interferência política”, acrescentou. Para ele, a troca de Roberto Castello Branco do comando da Petrobras representa uma punição por cumprir à risca o plano de governo.
Fonte: Valor Econômico - Empresas, por Edna Simão — De Brasília, 23/02/2021

