
Mesmo com o risco de desabastecimento e aumento do preço dos insumos, a Câmara Brasileira da Indústria da Construção Civil (CBIC) projeta crescimento entre 5% e 10% do mercado imobiliário neste ano. A estimativa considera uma expansão do Produto Interno Bruto (PIB) de cerca de 3,5%, avanço das reformas como a administrativa e tributária no Congresso Nacional e a manutenção da taxa de juros dos financiamentos imobiliários em patamar baixo.
O presidente da CBIC, José Carlos Martins, destaca que o aumento do preço do insumo da construção como aço, cimento, tubos de PVC e fios de cobre, assim como o desabastecimento, faz com que o setor “tenha medo” de fazer novos lançamentos e isso prejudica, principalmente, o desempenho do Programa Casa Verde e Amarela, substituto do Minha Casa Minha Vida, que é voltado para a população de menor renda e onde a margem de repasse é menor.
No ano passado, enquanto os lançamentos de imóveis residenciais tiveram redução de 17,8% ante 2019, as vendas aumentaram 9,8% na mesma base de comparação, segundo Indicadores Imobiliários Nacionais divulgados ontem pela CBIC em parceria a Brain Inteligência Estratégica. Em termos absolutos em 2020, foram lançados 151.782 imóveis ante 184.761 de 2019. Já as vendas passaram de 172.902 em 2019 para 189.857 em 2020.
Para Martins, em um ano fortemente afetada por causa da pandemia de covid-19, a expansão das vendas foi “extremamente significativa” e a queda dos lançamentos foi um movimento natural. Na comparação entre o 3º e 4º trimestre do ano passado, já se nota, segundo a pesquisa, aumento dos lançamentos de 33,2% e as vendas sobem 3,9%. A preocupação é que o comportamento dos preços dos insumos possa inibir a continuidade dessa expansão.
Preocupado, o presidente da CBIC terá, nos próximos dias, reuniões nos ministérios da Economia e do Desenvolvimento Regional (MDR) para discutir como minorar o impacto dos preços dos insumos citando que poderia ser negociada, por exemplo, uma repactuação de contratos, cotas de importação e teto do valor do imóvel do programa habitacional do governo.
No quatro trimestre do ano passado, o Programa Casa Verde e Amarela representou 48,6% (28.150) do total de unidades vendidas e de 47,1% (28.842) do total de lançamentos. Normalmente, essa participação fica acima dos 50%. O vice-presidente da área de Indústria Imobiliária da CBIC, Celso Petrucci, alertou que está havendo uma redução gradual dos recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), que atende mais o público de menor renda onde concentra o déficit habitacional, e ampliando as operações feitas com recursos da caderneta de poupança.
Martins acrescentou que o menor orçamento do FGTS para habitação está relacionado ao saque emergencial, medida que de tempos em tempos tem sido adotada pelo governo para ajudar na atividade econômica. O diretor da consultoria Brain, Fábio Tadeu Araújo, ressaltou que uma série de empresas especializadas em público de baixa renda está migrando para outros públicos e esse movimento pode ser intensificado. Ele disse também que os incorporadores poderão segurar os lançamentos por até dois meses na expectativa de acomodação dos preços dos insumos.
Dados da pesquisa mostram ainda que mantida a média de vendas dos últimos 12 meses, sem lançamentos, haveria o esgotamento da oferta final em 10 meses. A oferta final disponível no 4º trimestre de 2020 era de 164.786 unidades ante 157.304 no 3º trimestre, alta de 4,8%. Porém na comparação com o ultimo trimestre de 2019 há queda de 12,3%.
Ontem também foi divulgada pesquisa sobre o que os consumidores desejam, mostrando que 41% dos ouvidos tinham intenção de comprar um imóvel nos próximos dois anos. Os principais motivos eram sair do aluguel, trocar por uma residência maior, investir para alugar ou ainda sair da casa dos pais/morar sozinho. Foram ouvidos 1.200 consumidores entre os dias 28 de janeiro e 8 de fevereiro.
Fonte: Valor Econômico - Empresas, por Edna Simão — De Brasília, 23/02/2021

