A Centrais Elétricas de Santa Catarina (Celesc) lançou segunda­feira um projeto de instalação de sistemas de geração de energia solar em mil residências do Estado. A iniciativa é inédita também no formato: a empresa prometeu arcar com 60% do custo da instalação do sistema, planejado para uma família de quatro a cinco pessoas com consumo alto de energia elétrica.
 
Na segunda­feira, às 10h, a distribuidora de energia de Santa Catarina abriu o cadastro para os interessados no "Projeto Bônus Eficiente Linha Fotovoltaica". A procura superou qualquer expectativa ­ foram mais de dez mil pessoas em três dias. A cota reservada para a Grande Florianópolis foi alcançada em 30 minutos.

Trata­se do maior projeto do gênero de geração de energia solar no Brasil. Neste modelo, os consumidores se tornam também produtores de energia elétrica. Alguns dos requisitos são o cliente ter 20 m2 livres no telhado para a instalação de painéis fotovoltaicos que serão importados da China, não ter sombra de árvores ou prédios e consumo mensal de pelo menos 350 kWh nos últimos 12 meses.

A iniciativa tem peso em um segmento que apenas inicia no país. Até segunda­feira havia somente 8.232 unidades com geração distribuída no Brasil ­ fotovoltaicas e conectadas à rede ­, segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Pela iniciativa da Celesc, os consumidores aprovados no cadastro terão um sistema  fotovoltaico de 2,6 kWp. Pagarão por ele R$ 6.700, ou 40% de seu custo total, estimado em R$ 18 mil.

Os painéis solares no telhado poderão significar uma economia de R$ 2 mil ao ano para o consumidor na conta de
luz. O sistema fotovoltaico gerará energia elétrica para consumo da família e o excedente irá à Celesc, gerando um crédito ao cliente. "Este segmento está crescendo de forma significativa", disse ao Valor Cleverson Siewert, presidente da Celesc. "Ou tentamos incorporar este movimento ou vamos ficar para trás", continua. "Esta é uma tendência mundial."

Siewert diz que o preço da tecnologia está caindo e tornando a energia solar cada vez mais atraente. "O ′payback′ já foi de 20 anos. Hoje, para uma geração média, está em oito anos. E neste projeto é de 3,5 anos", calcula. O presidente da Celesc diz que o projeto servirá, também, para um estudo de mercado. "Quem sabe, em curto período, podemos abrir uma empresa neste setor. "


A instalação do sistema, que deve ser feita ao longo deste ano, é da Engie Solar, subsidiária da Engie Brasil Energia (ex­Tractebel), maior geradora privada de energia elétrica do país e que pertence à Engie (por sua  vez, exGDF Suez). A Engie Brasil opera uma capacidade instalada de 11.954 MW em 29 usinas no Brasil.

"O Brasil entrou um pouco tarde na microgeração solar em relação a outros países", reconhece Rodolfo Sousa Pinto, CEO da Engie Solar. "O que nos fez investir na tecnologia agora é porque não há muito mais espaço para grandes projetos de energia. Hidrelétricas só encontram espaço longe dos grandes centros e acabam enfrentando problemas ambientais e dificuldades com as linhas de distribuição."

Minas Gerais é o Estado que lidera a microgeração solar distribuída no Brasil. "Tem uma tarifa de energia muito alta, das mais caras do Brasil, e boa radiação solar", explica Sousa Pinto. São Paulo e Rio de Janeiro  vêm em seguida. Santa Catarina, por enquanto, ocupa o quarto lugar. 

"Agora Santa Catarina está na vanguarda desta tendência. Vamos quadruplicar o número de residências no Estado com esses sistemas e a potência total instalada passará dos atuais 2.878 kWp para 5.478 kWp", disse Siewert, em nota. A legislação que regulamenta o setor é de 2012. Sousa Pinto acredita que vários motivos explicam porque a microgeração não decolou no Brasil até há pouco. Um dos motivos é financeiro ­ o consumidor deveria desembolsar perto de R$ 18 mil para bancar um telhado solar como o da iniciativa da Celesc. 

"E não há ainda bons produtos para financiar em cinco ou sete anos", diz. Outro ponto é o entendimento sobre o sistema. "A pessoa deixa de ser consumidor de energia e passa a ser produtor". O mercado é novo e exige um
processo de educação que leva um tempo. "Tem de explicar o que é, distinguir de aquecimento de água que é outro processo", diz ele. A evolução do mercado, contudo, foi veloz em 2016. No começo do ano havia 2000 sistemas fotovoltaicos no país e em dezembro eram 8000. 

"A curva de expansão tem sido exponencial e deve seguir assim, com a Aneel prevendo que até 2024 serão 1,2 milhão de unidades consumidoras gerando sua própria energia." A Celesc está investindo R$ 11 milhões no projeto dos mil telhados, recursos que significam 20% do investimento previsto para este ano em eficiência energética.

Fonte: Valor - Empresas, por Daniela Chiaretti, 23/02/2017