A necessidade de investir em iniciativas mais ágeis que minimizem o impacto da atividade econômica no meio ambiente, sem ter que movimentar grandes recursos internos ou enfrentar a burocracia, acelerou projetos desenvolvidos por startups. Os empreendedores foram desafiados pela indústria a criar soluções sob medida para atender desde a reciclagem de resíduos até a economia de água e energia. Um estudo da Innovation Latam, em parceria com a Fundação Dom Cabral realizado ao longo do ano de 2020 com 509 startups de 19 países, incluindo o Brasil, Argentina, Chile, Colômbia e México, para mapear as soluções voltadas aos problemas alinhados aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) definidos pela ONU, mostra que 11,3% delas trabalharam com sistemas de impacto social e ambiental.
Empresas como Petrobras, Braskem e Ambev apresentaram os desafios enfrentados em algum de seus ciclos produtivos. A startup Alfa Sense, por exemplo, uma das selecionadas pela Petrobrás, criou o “fence lite”, um sistema de sensoriamento óptico para monitoramento de parâmetros como vibração, tensionamento, emissão e quantificação de gases por meio de fibra óptica para detectar e localizar vazamentos de gás metano e outros causadores de efeito estufa. “A análise feita por meio da luz é imune a interferências eletromagnéticas, intempéries climáticas e não apresenta risco de explosão, ideal para áreas críticas”, afirma Hamilton Luiz, diretor de negócios da Alfa Sense.

Outra empresa apoiada pela Petrobras e Ambev foi a Pam Membranas Seletivas, que desenvolveu um processo de tratamento de efluentes utilizando membranas, microfiltração e osmose inversa para a purificação e recuperação da água, reduzindo emissões e permitindo o reúso, explica Cristiano Piacsek Borges, sócio fundador da empresa.
Com foco no reaproveitamento de resíduos, a Green Mining integra o programa 100+ Accelerator, da Ambev, lançado em 2018, que buscava soluções para o retorno de embalagens para reciclagem. Um sistema de logística reversa com blockchain - que faz um registro digital de todo o processo -, identifica os locais de maior geração de resíduos pós-consumo, sejam bares, restaurantes, lojas ou condomínios, e consolida informações sobre cada etapa do processo, como data e local da coleta, quilos e destinação dos recicláveis.
Um coletor contratado pela Green Mining recebe um mapa de onde deve buscar as embalagens, já separadas por tipo de material, faz a primeira pesagem dos resíduos que são fotografados por smartphone, garantindo que a embalagem coletada vem do pós-consumo. Depois, a coleta é encaminhada para centrais de recebimento, segundo Rodrigo Oliveira, presidente da Green Mining.
O acúmulo de resíduos no espaço urbano e o descarte em locais proibidos incentivou a criação em 2018 da MadTech em Belém do Pará (PA), que lançou a madeira biossintética feita a partir de um mix de plásticos recicláveis e sobras agroindustriais, além do pó de vidro. “Os materiais são transformados em uma nova matéria-prima que pode ser usada em movelaria, construção civil, embalagens, pisos e revestimentos, evita a derrubada de árvores e substitui a madeira extrativa na produção”, afirma Melquisedec Corrêa Junior, fundador da startup.
Prover água potável para o semiárido brasileiro é a especialidade da Safe Drinking Water For All (SDW), startup baiana reconhecida internacionalmente pela ONU, cuja tecnologia beneficia mais de 400 famílias do Nordeste e Norte. Influenciada pela leitura de “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, no fim do ensino médio, Anna Luísa Beserra Santos, CEO da SDW, criou o Aqualuz. A tecnologia trata água pluvial de cisternas em regiões remotas e quentes usando apenas o sol, sem substâncias químicas ou filtros, para purificar a água. Uma estrutura metálica com tampa de vidro e tubulação simples é acoplada à cisterna com capacidade de 10 litros que realiza um ciclo de tratamento que dura de duas a quatro horas, tempo necessário para o sensor do equipamento mudar de cor, indicando que a água pode ser retirada do Aqualuz para consumo. “Todo o sistema é fácil de instalar e manter, beneficiando famílias distantes dos centros urbanos”, diz Anna Luísa.
Segundo a Sabesp, 43% da água consumida no Sistema Cantareira vai para descargas no vaso sanitário. Esse desafio norteou o projeto do empreendedor Ezequiel Vedana da Rosa, fundador da Piipee que produz um aditivo biodegradável que reduz em até 100% a necessidade de utilizar água para eliminar a urina, tecnologia adotada em empresas como Braskem, Randon, Sicredi, Raízen, Embracon e Eurofarma.
Fonte: Valor Econômico - Suplementos, por Ana Luiza Mahlmeister — Para o Valor, de São Paulo, 18/02/2021

