A inflação oficial começou 2021 em ritmo menos intenso do que era esperado, com alta de 0,25% do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em janeiro, abaixo da mediana de 0,32% colhida pelo Valor Data e bem inferior a dezembro (1,35%). Apesar do número, que teve forte influência da deflação de 5,60% da energia elétrica - com impacto de -0,26 ponto percentual no índice -, economistas acreditam que o movimento é temporário. A inflação deve seguir com algumas pressões nos próximos meses, como a de combustíveis, e o comportamento do câmbio também é um alerta para 2021.

Há quem aponte com atenção para a chamada inflação subjacente - aquela que tenta amenizar o efeito de itens mais voláteis e que é acompanhada mais de perto pelo Banco Central -, mas outros analistas lembram que há sinais de demanda em baixa, como a desaceleração da alta de alimentos e os preços de serviços.

“A surpresa positiva de inflação é bem-vinda, mas isso não muda a trajetória prevista. A desaceleração vista em janeiro é temporária e teremos novamente pressão em fevereiro. A inflação em 12 meses vai continuar acelerando ao longo do primeiro semestre”, afirma o economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez, com projeção de IPCA em 3,6% em 2021.

Pelo indicador acumulado em 12 meses, o IPCA acelerou para 4,56% em janeiro, acima dos 4,52% de 2020 e também do centro da meta inflacionária estabelecida pelo Banco Central de 3,75% para 2021 - com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual, para mais ou para menos. A taxa de 0,25% é a menor para um mês desde agosto de 2020, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Uma das notícias positivas do IPCA de janeiro veio da desaceleração das medidas de núcleo da inflação, métricas que buscam suavizar o impacto de itens mais voláteis. Em 12 meses, a média dos principais núcleos está em “confortáveis 3%”, apontou em relatório o Goldman Sachs, que a classifica como “ainda baixa e benigna”.

Com uma visão cautelosa sobre o cenário, a economista do Itaú Unibanco Julia Passabom acredita que a inflação subjacente - em especial o núcleo IPCA-EX3, indicador subjacente de serviços e industriais - ainda não está com uma “cara boa”, pressionada principalmente pelo comportamento de bens industriais, embora não tenha demonstrado aceleração além do esperado em janeiro, apresentando um número “ok para bom”.

“Não é uma cara boa de inflação subjacente, mas veio marginalmente melhor do que estávamos imaginando. Nada que mude nossa avaliação do processo de inflação subjacente pressionada na margem”, afirma a economista do Itaú.

Os preços de combustíveis são uma preocupação para o economista-chefe do Banco Alfa, Luis Otávio de Souza Leal. Eles, inclusive, já aceleraram em janeiro, com alta de 2,13%, ante 1,56% em dezembro - com destaque para gasolina (2,17%, a oitava alta seguida) e óleo diesel (2,60%). O IPCA de janeiro mostrou que “esse problema dos combustíveis está continuando”, afirma Leal, lembrando que a Petrobras já anunciou outros aumentos nas refinarias.

Com isso, a projeção do Alfa para o IPCA de fevereiro, que rodava perto de 0,70% a 0,75% agora está indo para um nível próximo de 0,90%, considerando ainda que este mês é marcado pelo reajuste sazonal em educação. Por enquanto, o Alfa projeta um IPCA de 3,5% no fim de 2021, mas o viés é para cima exatamente pela questão dos combustíveis.

Parte dos economistas vê sinal de alerta na inflação de serviços subjacentes, que ficou pressionada em janeiro pela alimentação fora do domicílio, que acelerou de 0,77% em dezembro para 0,91% em janeiro, como é o caso da equipe da Genial Investimentos.

Fábio Romão, da LCA Consultores, no entanto, vê o movimento mais como uma aproximação do setor, que foi duramente afetado pela pandemia, do patamar observado em janeiro de 2020. Pelos seus cálculos, os preços de serviços subjacentes - que excluem itens como passagens aéreas - variaram 0,61% em janeiro de 2021, contra 0,36% em dezembro. Em janeiro de 2020, tinham registrado alta de 0,56%.

Ele destaca que, considerando a última década, essa inflação subjacente de serviços só não é a menor para um mês de janeiro do que em 2017 e 2018 (0,45% e 0,18%, respectivamente). “A ideia de que os serviços vão acelerar é verdade, muito pela redução das restrições de circulação ao longo do ano, com o avanço da vacinação e o próprio crescimento econômico, mas será para um nível ‘aceitável’”, afirma Romão.

Economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves vê “clara situação de fragilidade da renda e da demanda”. “Nosso cenário é de predomínio dos itens ligados à demanda (para baixo) sobre os ligados ao câmbio (para cima)”, diz.


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Lucianne Carneiro e Anaïs Fernandes — Do Rio e de São Paulo, 10/02/2021