O momento de desconfiança no mercado quanto às perspectivas para a situação fiscal do Brasil se traduziu ontem em pressão sobre os ativos locais. O dólar sofreu com intensa busca por proteção e chegou a atingir a marca de R$ 5,44 durante a tarde, o que forçou uma atuação do Banco Central (BC) via swap cambial para amenizar o estresse. Já o Ibovespa fechou em queda em um dia de instabilidade e novo tombo das ações da Petrobras.
O dólar comercial fechou em alta de 0,22%, aos R$ 5,3824, depois de tocar R$ 5,4474 na máxima do dia. O avanço só não foi mais intenso porque o BC vendeu, durante a tarde, 20 mil contratos de swap cambial - o equivalente a US$ 1 bilhão em dólar futuro.
Já o Ibovespa terminou em baixa de 0,19%, aos 119.472 pontos. De um lado, as ações de bancos ajudaram a sustentar o índice, garantindo alguns momentos de alta da bolsa. Por outro, o dia foi marcado por um novo recuo nas ações da Petrobras.
Comentários feitos ainda na segunda-feira por autoridades sobre o retorno do auxílio emergencial pesaram nos ativos locais. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), indicou não gostar da ideia de vincular o programa a outros pontos da agenda econômica e ressaltou a importância de que o auxílio volte a ser implementado rapidamente.
Ontem, em reunião de líderes do Senado, Pacheco defendeu que a iniciativa do novo auxílio parta do governo. O Valor apurou que o Ministério da Economia negocia a edição de uma nova versão da PEC do Orçamento de Guerra e também tem insistido na necessidade de se avançar com o ajuste fiscal por meio da PEC Emergencial.
Os riscos de que não haja uma contrapartida, no entanto, fizeram o mercado voltar a embutir prêmio de risco ao longo da curva de juros - um dos principais termômetros de risco fiscal do mercado. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 subiu de 7,04% para 7,12%, depois de tocar 7,18% na máxima do dia.
O movimento chegou a ganhar força no fim da manhã durante a participação do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, em evento. O dirigente apontou que “todos estão falando sobre isso nesses dias”, referindo-se às pressões inflacionárias, e disse que o mercado tem projetado inflações implícitas mais elevadas tanto no curto quanto no médio prazo.
Durante o evento, Campos também reforçou que o horizonte relevante da política monetária tem um intervalo maior e disse que os mercados têm sido muito sensíveis a pequenas mudanças na inflação. Ele reconheceu que a inflação se espalhou mais do que o esperado, mas enfatizou que é preciso fazer política monetária olhando para o longo prazo. Divulgado ontem, o IPCA de janeiro mostrou alta de 0,25%, abaixo da mediana das expectativas (0,32%), o que impôs viés de queda aos juros curtos durante boa parte do pregão.
Alguns analistas comentaram que os números amenizaram a probabilidade de uma alta de juros já no mês que vem. No entanto, o economista-chefe para Brasil do Barclays, Roberto Secemski, alerta que a extensão do auxílio emergencial “sugere que os riscos de alta para a inflação anteriormente destacados agora têm maior probabilidade de se materializar”. Após a divulgação do IPCA de janeiro, Secemski elevou sua projeção para a inflação neste ano de 3,6% para 3,9% - acima, portanto, do centro da meta - e passou a esperar que o Copom comece o ciclo de normalização da Selic já em março, e não mais no encontro de maio.
O momento rodeado de ruídos também atinge as ações da Petrobras, que estenderam as perdas ontem com desconfiança sobre a política de preços. Petrobras ON perdeu 2,60% e Petrobras PN cedeu 2,03% - na semana, as baixas são de 6,64% e 5,10%, respectivamente.
Para Marcelo Audi, sócio e gestor da Cardinal Partners, a desconfiança em torno da Petrobras e a pressão sobre as ações da companhia ainda demoram algum tempo para serem reduzidas. O histórico negativo de interferência política na empresa aflora o ceticismo no mercado. E o que a empresa tem de fazer é demonstrar que a política de preços continua, sem interferência externa, a exemplo do reajuste de preços ocorrido na segunda, diz.
Para os analistas do Goldman Sachs, esse reajuste de preços e o anterior, ocorrido no fim de janeiro, são positivos para enfrentar as preocupações dos investidores. Com recomendação de compra das ações da estatal, eles avaliam que “a empresa tem seguido as tendências internacionais dos preços do diesel e da gasolina (embora com um atraso de algumas semanas) tanto na tendência de baixa quanto de alta nos preços internacionais dos combustíveis”.
A desconfiança neste momento, porém, incide também sobre a negociação em torno de venda de refinarias. “A dinâmica de desconfiança surge rapidamente e demora a diminuir. E isso pode gerar algum tipo de atraso e insegurança no processo de venda de refinarias. O comprador pode ofertar menos. É um risco que precisamos monitorar”, diz Audi, da Cardinal Partners.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Victor Rezende, Lucas Hirata e Felipe Saturnino — De São Paulo, 10/02/2021

